É oficial: Tumba do faraó Tutankhamon não possui câmaras ocultas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Após anos de espera finalmente possuímos uma resolução acerca dos trabalhos de busca por câmaras ocultas na tumba do faraó Tutankhamon, que reinou durante a 18ª Dinastia (Novo Império).

Desde 2015 o público acadêmico e curiosos têm esperado uma conclusão acerca desta teoria, que surgiu após a publicação de um artigo do egiptólogo britânico Nicholas Reeves, que sugeriu que a pequena tumba do rei, tombada como “KV-62”, possuiria indícios de entradas para outras câmaras funerárias. Ainda, de acordo com a teoria, estas câmaras seriam nada mais, nada menos, que pertencentes ao sepultamento da rainha Nefertiti, sogra do jovem governante.

Apesar de ser uma sugestão um tanto excêntrica o Ministério das Antiguidades do Egito a considerou plausível e por isso autorizou análises com radares na sepultura. A primeira ocorreu em 2016, liderada pelo próprio Reeves e apontou que existiria “70% de chances”, nas palavras do Ministro das Antiguidades da época, de que existiria câmaras ocultas na sepultura. No entanto, os resultados desta pesquisa foram questionados devido a sua imprecisão e a negativa do seu executor, o Hirokatsu Watanabe em liberar seus dados para que pudessem ser apreciados por outros acadêmicos e a imprensa (o que é comum com pesquisas científicas). Então uma segunda análise foi feita, desta vez pela National Geographic, que desconsiderou qualquer hipótese de existência de tais espaços vazios. Ambas estas pesquisas foram comentadas no nosso vídeo “Sobre as supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon” (clique aqui para assistir).

Então no final de 2017 o Ministério aprovou uma nova análise, desta vez liderada por uma equipe italiana. As pesquisas tiveram início em fevereiro (2018) e suas conclusões foram disponibilizadas agora no início de maio (2018) (e já comentada em nossa página no Facebook). O resultado? Não existem câmaras ocultas alguma na sepultura.

Agora poderemos fechar mais um capítulo relacionado com as pesquisas realizadas na tumba de Tutankhamon. Mas, vindo deste rei, agora é só esperar qual nova teoria surgirá sobre ele.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas você poderá ver egípcios pintando a parede de uma tumba, tal como teriam pintado as paredes da sepultura de Tutankhamon.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

Supreme Council of Antiquities denies claims of new discovery in King Tutankhamun’s tomb. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/290670.aspx >. Acesso em 09 de fevereiro de 2018.
Desvendado o grande mistério sobre as câmaras secretas na tumba de Tutancâmon. Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/internacional-44029049 >. Acesso em 07 de maio de 2018.

Fotos: Wikimedia Commons.

(Vídeo) Sobre as supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Semana passada liberei mais um post acerca das pesquisas realizadas na tumba do faraó Tutankhamon (clique aqui para conferir e aqui para ver todas as postagens escritas sobre o assunto). Agora disponibilizo no site o vídeo onde respondo algumas questões bem gerais que tais estudos despertaram no público.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

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Sobre a teoria de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde meados de 2015 a tumba do faraó Tutankhamon (KV-62) tem sido alvo de pesquisas não invasivas realizadas pelo Ministério das Antiguidades do Egito. São estudos que buscam por evidências de que a sepultura, que possui somente quatro cômodos, em verdade possuiria câmaras ocultas por trás de duas das paredes da câmara funerária (Imagem 01).

Imagem 01: KV-62. As partes amareladas são sugestões do que existiria atrás das paredes. Imagem: Theban Mapping Project (com adições).

Essa busca foi influenciada pelo o artigo do egiptólogo Nicolas Reeves, The burial of Nefertiti, que após observar fotos em alta resolução das paredes da sepultura salientou que o local contém ranhuras e rebocos grosseiros que apontariam que o túmulo possui uma continuação. Ainda de acordo com a sua interpretação, em verdade a KV-62 não pertencia a princípio ao Tutankhamon, mas à rainha Nefertiti, a qual Reeves acredita que teria governado como faraó.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Apesar da crença de que a KV-62 seja a sepultura de Nefertiti não seja aceita por muitos acadêmicos, a sugestão de que existiriam câmaras ocultas chamou a atenção do Ministério das Antiguidades, que nos dias 28 e 29 de setembro (2015) levou Reeves para dar uma olhada pessoalmente no local. Ocasião em que o ministro anunciou que existia uma grande possibilidade de haver câmaras secretas na tumba (uma chance de 70% em suas palavras).

Imagem 02: Hirokatsu Watanabe. Foto: Brando Quilici. 2016.

Um mês depois desta visita o pesquisador Hirokatsu Watanabe passou um radar na sepultura e anunciou que nos locais apontados por Reeves “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, complementando que “É muito profundo”[1]. Tempos depois, em 17 de março (2016) foi realizada uma conferência de imprensa onde foram liberadas as seguintes imagens:

Imagem 03: Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Imagem 04:  Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Foi após este período que começou a crescer cada vez mais a desconfiança por parte de acadêmicos e não acadêmicos de que talvez a forma como esta pesquisa estava sendo levada era só uma tentativa de fascinar as pessoas e fazê-las visitar o país, cujo turismo não está em seus melhores anos.

— Leia mais em “Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Uma segunda análise com um scaner foi realizada, mas ao contrário da primeira o Ministério das Antiguidades não liberou nenhuma imagem. O que foi particularmente estranho. Se vocês observarem eu nem sequer cito aqui no Arqueologia Egípcia o que ocorreu neste período porque alguma coisa realmente não estava se encaixando. E eu não estava interessada em encher o A.E. com notícias incompletas sobre uma pesquisa que estava cada vez mais parecendo ter intenções questionáveis.

Paralelamente, pesquisadores não vinculados ao projeto começaram a pedir por mais dados da análise feita pelo o Watanabe, afinal, o Ministério só tinha liberado imagens verticais e não horizontais. E de fato, com um corte assim não é possível ter muita certeza do que ele conseguia ver.

Conferência sobre o Tutankhamon:

Ocorreu entre os dias 06 a 08 de maio (2016) uma conferência no Egito para mostrar as últimas pesquisas realizadas sobre o faraó Tutankhamon e a última mesa do evento foi dedicada justamente para discutir a busca por câmaras ocultas. E nesta mesma mesa participaram Mamdouh Eldamaty (que era ministro na época em que os trabalhos tiveram início), o Nicholas Reeves, Hirokatsu Watanabe, Yasser El Shayb e Zahi Hawass.

Um dos meus contatos estava presente e pelas informações passadas ocorreu um notável debate acadêmico. Incrivelmente, horas mais tarde, a imprensa internacional e nacional (Egito) teve mais interesse em veicular sobre o breve bate-boca entre Hawass e Eldamaty e não se preocupou em noticiar para seus leitores que Watanabe, que meses antes tinha tanta certeza de que existia uma câmara oculta na tumba,  desta vez falou que os seus dados são inconclusivos. Ele ainda complementou que o seu aparelho foi customizado por ele e que por isso só ele conseguia ler os dados obtidos [2].

Imagem 05: Trabalho realizado pela National Geograhic. Foto: Kenneth Garrett. 2016.

Dias seguintes, 11 de maio (2016), saiu uma notícia escrita pelo jornalista e bacharel em Arte, Owen Jarus, no site Live Science [3] onde foi mencionado que os dados coletados pela equipe da National Geographic não foram liberados para o público porque eles simplesmente não tinham encontrado nada no local, mas que o Ministério queria continuar a manter a história. De acordo com a sua matéria ele tinha solicitado para a National Geographic os dados de sua pesquisa e como resposta foi dito que ela estava proibida de liberar qualquer informação sobre o assunto.

Quais são os passos futuros?

Tempos depois da mesa redonda do dia 08 o atual ministro anunciou que ia montar uma nova comissão para definir quais novas pesquisas serão realizadas. Particularmente não faço ideia de qual técnica eles planejam utilizar agora já que eles já fizeram uso do GPR, que de acordo com o pesquisador Lawrence Conyers (especialista na área e que foi entrevistado pelo Owen) é a ferramenta mais confiável.

Por hora só nos resta esperar.

Fontes:

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em <http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] In Egypt, Debate Rages Over Scans of King Tut’s Tomb. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/05/160509-king-tut-tomb-chambers-radar-archaeology/ >. Acesso em 09 de maio de 2016.

[3] Nefertiti Still Missing: King Tut’s Tomb Shows No Hidden Chambers. Disponível em < http://www.livescience.com/54708-nefertiti-missing-no-chambers-in-king-tut-tomb.html >. Acesso em 11 de maio de 2016.

Lá no canal do Arqueologia Egípcia no YouTube irá sair um vídeo onde respondi algumas questões sobre esta pesquisa. O vídeo sairá aqui no site em uma próxima postagem, mas caso queira se inscrever no canal é só clicar aqui.

São revelados os resultados das buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estando na lista das descobertas arqueológicas mais esperadas de 2016, organizada pelo site Discovery News, a busca por supostas câmaras ocultas na KV-62, tumba do faraó Tutankhamon, gerou um grande hype nos meios de comunicação, resultando em várias teorias do que estaria por trás das paredes do sepulcro.

Planta da KV-62. Imagem: Theban Mapping Project.

Tudo começou quando o egiptólogo Nicolas Reeves sugeriu, após ver fotografias em alta resolução do túmulo, que por trás das paredes norte e oeste da KV-62 existiriam passagens secretas.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

Na Arqueologia devemos apresentar uma série de indícios palpáveis que corroborem nossas interpretações e tudo isso deve seguir uma metodologia confiável. Desta forma, o que começou como um artigo divulgado na internet findou em um convite do Ministério das Antiguidades do Egito para o próprio Reeves analisar a sepultura pessoalmente, para ver se seria possível encontrar mais coisas que pudessem apoiar a sua suposição.

Escrevi aqui no Arqueologia Egípcia dois posts bem detalhados sobre o assunto. Vocês poderão lê-los clicando nas seguintes chamadas:

— Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon.

— Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

No dia 21 de fevereiro deste ano (2016), anunciei na página do AE no Facebook que os resultados das análises seriam liberados em abril (2016):

Hoje foi anunciado que os resultados sobre a busca por câmaras na KV-62 (tumba de Tutankhamon) serão liberados em abril. De acordo com o Ministro do Turismo, Hisham Zaazou, não tratam-se de câmaras vazias…

Publicado por Márcia Jamille – Arqueologia Egípcia em Domingo, 21 de fevereiro de 2016

Contudo, fui surpreendida no meio desta semana por um dos meus contatos que comentou que parte do anúncio iria ser apresentado no dia de hoje, 17 de março de 2016.

De acordo com o anúncio, realizado esta manhã durante uma conferência de imprensa do Ministério das Antiguidades, o que parecem ser duas câmaras foram reveladas pelos exames do radar de penetração (GPR). Elas encontram-se nas paredes norte e leste da sepultura e foi possível identificar o que parece ser a presença de metal e material orgânico. As curvas do GPR também podem ter identificado linteis de portas acima das cavidades detectadas.

Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Novos exames serão realizados no final desse mês de março, para poder determinar as dimensões exatas​ de tais câmaras. Igualmente outra conferência de imprensa será realizada no dia 01 de abril para mostrar os resultados de forma mais precisa.

Fontes:

Results of Tut tomb scan to be revealed Thursday: Damaty. Disponível em < http://thecairopost.youm7.com/news/199426/news/results-of-tut-tomb-scan-to-be-revealed-thursday-damaty >. Acesso em 16 de março de 2016.

Hidden Chambers Discovered in King Tutankhamun’s Tomb by Scans. Disponível em < http://egyptianstreets.com/2016/03/17/hidden-chambers-discovered-by-scans-in-king-tutankhamuns-tomb/ >. Acesso em 17 de março de 2016.

Scans of King Tut’s Tomb Reveal New Evidence of Hidden Rooms. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/03/160317-king-tut-tomb-hidden-chambers-radar-egypt-archaeology/ >. Acesso em 17 de março de 2016.

Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

O Discovery News, site vinculado ao Discovery Channel, fez uma lista das descobertas arqueológicas mais esperadas de 2016. Dentre as pesquisas pontuadas está a espera para saber se existem câmaras secretas na KV-62, ou seja, na tumba de Tutankhamon, localizada no Vale dos Reis.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

Parece até tópico de alguma produção cinematográfica de mistério, mas a existência de câmaras secretas — que explico de antemão que não tem nada a ver com armadilhas, portas automáticas, etc — em tumbas de nobres e da realeza egípcia não é nenhuma novidade. Bons exemplos podem ser encontrados nas sepulturas de Amenhotep II (KV-35), Tutmés IV (KV-43), Amenhotep III (WV-22) e Horemheb (KV-57), que guardam saletas outrora secretas onde foram escondidos corpos de membros da família real cuja tumba original foi saqueada.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Porém o caso da tumba de Tutankhamon seria diferente. Se a proposta estiver correta ele não teria sido sepultado em uma câmara lateral secreta, mas no início de uma tumba. Algo difícil de acreditar, mas em termos de Arqueologia muita coisa pode surpreender. Foi pensando assim que o Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, convidou o autor da teoria, o egiptólogo inglês Nicolas Reeves, a testar sua hipótese na própria KV-62, a qual o inglês crê que em verdade pertenceria à rainha Nefertiti.

Assim, foram realizadas em setembro de 2015 avaliações não invasivas (sem perfurações, raspagens, etc) na sepultura e durante a análise dos dados coletados foi anunciado que tinha uma chance de 70% de existir câmaras secretas na tumba. Porém, como os resultados coletados não eram conclusivos, o Ministério das Antiguidades anunciou que uma equipe japonesa também analisaria o local.

Dois meses depois, na manhã do dia 28 de novembro de 2015, foi anunciado o resultado da varredura com o radar dos japoneses: o exame preliminar dos dados forneceu evidências de que existem espaços ocos atrás de duas das paredes da câmara funerária. “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, disse o pesquisador Hirokatsu Watanabe, responsável pela equipe asiática. Na ocasião ele manipulava o radar em frente ao Ministro das Antiguidades, do Ministro do Turismo Hesham Zazou, oficiais, alguns repórteres e do próprio Nicolas Reeves. “É muito óbvio que isso é alguma coisa. É muito profundo”[1].

Entrada da KV-62 na época da sua descoberta. Foto: Harry Burton.

Após esta revelação, Mamdouh al-Damaty deu algumas declarações para a imprensa. “Temos algo aqui” [2], assegurou o ministro ao jornal ABC Cultura, indicando que existe uma certeza de 90% de que tem um espaço vazio atrás da parede norte e oeste da câmara funerária da KV-62. Contudo, sobre a sugestão de que seja o sepultamento de Nefertiti ele discorda e salienta que “sendo ou não Nefertiti, o descobrimento de uma câmara reescreveria a história da tumba de Tutankhamon”[2].

Howard Carter e o seu patrocinador, Lord Carnarvon.

“De uma perspectiva turística, este achado está rivalizando com a original redescoberta do túmulo por Howard Carter”, disse Hesham Zazou para a National Geographic [1]. Desde a revolução de 2011 o turismo do Egito, um dos maiores suportes econômicos do país, sofreu declínio. Os pesquisadores e o Ministro do Turismo acreditam que esta pesquisa poderá reviver o fascínio das pessoas pela terra dos faraós.

Isso levanta a dúvida de que se este não é um caso clássico de fazer uso da febre do público não acadêmico por Tutankhamon em prol da economia do país. A desconfiança em relação a ética nesta pesquisa é forte, especialmente quando é rememorado que ao longo dos anos documentaristas e revistas lucraram com as numerosas propostas de “causas de morte” do faraó.

— Saiba mais assistindo “#TutEOValeDosReis: Como o faraó Tutankhamon morreu?”.

A dúvida aqui não é em relação a veracidade dos dados coletados, mas das intenções dos pesquisadores envolvidos. Primeiro do Reeves em associar forçosamente a tumba com Nefertiti e segundo do Ministério das Antiguidades ao noticiar cada um dos passos imediatamente para a imprensa, correndo o risco de encher o público acadêmico e não acadêmico com esperanças que podem ser equivocadas; O que está atrás das paredes pode ir desde um anexo com artefatos fúnebres, uma câmara funerária intacta, uma simples câmara vazia ou mesmo uma fenda, tão comum no Vale dos Reis.

Planta da KV-62. Imagem: Theban Mapping Project.

Mesmo quando foram realizados os exames de DNA e a tomografia do corpo do rei existiu um tempo longo entre a coleta de dados, a analise, a conclusão e a conseguinte disponibilização dos resultados. Em verdade em todas as pesquisas realizadas no Egito, seus resultados só são liberados para o público após um considerável período, para que equívocos não sejam criados. Entretanto, neste caso das possíveis câmaras ocultas está evidente que o Ministério das Antiguidades resolveu ir por outro caminho.

Zahi Hawass:

Zahi Hawas, antigo Ministro das Antiguidades, é um dos que olham para esta pesquisa e o posicionamento do britânico Nicolas Reeves, com desconfiança. Para ele, Reeves está vendendo uma ilusão para o Egito e que foi muito conveniente escolher justamente o nome de Nefertiti para associar com estas supostas câmaras. Abaixo suas palavras para o jornal ABC Cultura:

“Este mesmo radar foi usado por Reeves em 2006, e Reeves publicou que encontrou uma tumba no Vale dos Reis e a chamou de KV-63. Eu escavei nessa zona e resultou que somente se tratava de uma fenda na montanha, não uma câmara. O especialista do radar japonês (Watanabe) trabalha para ele, por isso dirá o que Reeves disser. Não creio que haja nenhuma tumba, talvez um quarto fechado e vazio, ou poderia ser somente um buraco, mas não há forma de prová-lo, porque destruiria a tumba. Reeves tem vendido ar ao Egito, porque não há forma de comprovar se o que existe por detrás da parede é um buraco ou de fato uma câmara. Simplesmente, tem sido muito inteligente decidir que é Nefertiti” [3].

A tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 pelo arqueólogo britânico Howard Carter e dela foram catalogados mais de 5.000 artefatos, a maioria em ótimo estado de conservação, apesar de possuir mais de três milênios.

Fontes:

Top Archaeological Finds Expected in 2016. Disponível em < http://news.discovery.com/history/archaeology/top-archaeological-finds-expected-in-2016-160113.htm >. Acesso em 16 de janeiro de 2016.

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] Mamdouh El Damaty: «Sea o no Nefertiti, se reescribirá la historia de la tumba de Tutankamón». Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-mamdouh-damaty-o-no-nefertiti-reescribira-historia-tumba-tutankamon-201512261310_noticia.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

[3] Zahi Hawass: «No creo que haya otra tumba junto a la de Tutankamón, tal vez solo una habitación». Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-zahi-hawass-no-creo-haya-otra-tumba-junto-tutankamon-solo-habitacion-201512101403_noticia.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Egipto, seguro al 90% de que existe una habitación secreta en la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-egipto-seguro-90-por-ciento-existe-habitacion-secreta-tumba-tutankamon-201511281331_noticia.html>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

AGORA NA ARQUEOLOGIA EGÍPCIA: Segundo radar sugere existência de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Disponível em <  https://www.facebook.com/marciajamille.arqueologiaegipcia/photos/pb.150542331413.-2207520000.1453155127./10153860842801414/?type=3&theater>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Hallan indicios serios de cámaras ocultas en la tumba de Tutankhamón. Disponível em <  http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/10937/hallan_indicios_serios_camaras_ocultas_tumba_tutankhamon.html>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Egyptian expert disputes new theory that Queen Nefertiti is in Tutankhamun’s tomb. Disponível em <  http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/egypt/12067553/Egyptian-expert-disputes-new-theory-that-Queen-Nefertiti-is-in-Tutankhamuns-tomb.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Encontrada em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter, a tumba do faraó Tutankhamon guardava em seu interior o maior acervo funerário praticamente intocado advindo de um rei egípcio, o que acabou despertando a curiosidade tanto do público acadêmico, como o comum. Denominada então como KV-62, após quase um século de sua descoberta a sepultura ainda é alvo de pesquisas.

Recentemente o egiptólogo britânico Nicolas Reeves publicou em um artigo sua teoria de que nas paredes norte e oeste da KV-62 (inclusive em uma delas está retratada o “Ritual de Abertura da Boca” entre Ay e Tutankhmon; Imagem 01) existem passagens secretas que levam para duas câmaras ocultas.

Imagem 01: Ritual de abertura da boca entre o falecido faraó Tutankhamon e o seu sucessor, Ay. Foto: Factum Arte.

Entretanto, a pesquisa de Reeves parte para o sensacionalismo justamente quando ele sugere que essas possíveis câmaras escondidas guardam a tumba da rainha Nefertiti, esposa de Akhenaton e mãe de Ankhesenamon, esposa de Tutankhamon: caso existam tais espaços secretos o mapa da tumba muda e de acordo com a dedução do pesquisador ela ficaria mais semelhante com as sepulturas reservadas para rainhas. Ainda seguindo a proposta, o local onde hoje se encontra a câmara funerária em verdade anteriormente teria sido um corredor que foi ampliado para ser adequado para o enterro de um faraó, mas esse governante não seria Tutankhamon, mas Nefertiti, o que covenientemente apoiaria a proposta de Reeves de que parte do equipamento funerário de Tutankhamon pertenceria a essa rainha (— Leia mais sobre Nicolas Reeves e a tumba de Tutankhamon: “O funeral de Tutancâmon (comentários)“) e que ela reinou como faraó por um breve período. Uma proposta ousada e extremamente questionada no meio acadêmico.

O artigo causou frenesi, onde jornais e sites do mundo inteiro começaram a apontar notícias equivocadas de que a tumba da rainha egípcia foi descoberta dentro da KV-62, embora o Reeves aponte no próprio texto que sua pesquisa necessita de mais evidências para confirmar a tese.

Como foi efetuado o trabalho?

As análises do Reeves foram feitas através das fotos de alta resolução registradas pela Factum Arte quando eles estavam construindo a réplica da tumba de Tutankhamon; ao avaliar as imagens, ele observou caraterísticas que poderiam sugerir que a KV62 seria maior do que se acredita.

Sua proposta é apoiada em evidências — ainda circunstanciais — como a linha do teto da câmara funerária, que combina com a seção da parede que parece ser uma porta que foi rebocada, o que indicaria que ali seria um corredor. Também existem contrastes nos materiais que cobrem diferentes pontos da mesma parede onde o muro circundante da possível porta bloqueada tem um reboco mais suave e onde estaria a porta em si existe uma cobertura mais grosseira, parecida com a que cobria a entrada da câmara funerária na época em que Carter abriu a tumba (Imagem 02). Tais espaços também possuem linhas retas abaixo da superfície da pintura e do gesso que sugere contornos de portas.

Imagem 02: Entre as estátuas do faraó Tutankhamon está um tipo de reboco diferente na parede, que bloqueava a câmara funerária e a câmara do tesouro. Foto: Harry Burton.

A existência de câmaras escondidas em tumbas não é irreal, uma vez que possuímos exemplos semelhantes em outros túmulos no Vale dos Reis, tais como a de Amenhotep II (KV-35), Tutmés IV (KV-43), Amenhotep III (WV-22) e Horemheb (KV-57), cujas paredes escondiam saletas bloqueadas e até mesmo múmias da realeza egípcia (Imagem 03). A maior diferença na tumba de Tutankhamon é que uma destas supostas portas estaria bem atrás de uma figura parietal, o que tornaria sua abertura mais problemática.

Imagem 03: Três das múmias encontradas em câmaras escondidas na tumba de Amenhotep II (KV 35).

A busca por evidências palpáveis:

Parte das objeções sobre a possibilidade da KV-62 estar escondendo a tumba de Nefertiti está certamente no fato de que não existe evidência realmente palpável do que pode estar atrás dessas câmaras, se é que elas existem. Em complemento a insistência (para alguns um fascínio) de Reeves pela a busca por Nefertiti tem levado alguns pesquisadores a não se excitarem muito com o rumo que essa tese tem tomado na imprensa mundial. Foi ele quem em anos anteriores afirmou ter encontrado anomalias em outro ponto do Vale dos Reis, vistas através de imagens adquiridas de um radar, e sugeriu que tais anomalias seria a tumba da rainha.

Contudo, após observar que a teoria de câmaras escondidas valia a pena ser testada, o Ministro das Antiguidades do Egito, Mamdouh el-Damaty, convidou Reeves para dar uma olhada no sepulcro pessoalmente antes da mesma ser fechada para reparos em outubro (2015). Assim, nos dias 28 e 29 de setembro foram realizadas analises não invasivas (ou seja, sem perfurações, raspagens, etc) na sepultura e o ministro confirmou que existe uma grande possibilidade de haver câmaras secretas na tumba (uma chance de 70% nas palavras dele), mas que não é possível saber o que de fato existe do outro lado. Inclusive o próprio discorda do Reeves acerca de que lá está a sepultura da rainha Nefertiti.

A teoria do Reeves também sugere que a imagem que retrata Tutankhamon e o vizir Ay (Imagem 01) realizando o “Ritual da Abertura da Boca” na realidade seria Nefertiti e Tutankhamon, respectivamente. Essa suposição está baseada na ideia de que a dobra no canto da boca de Tutankhamon (Imagem 04) é uma característica única de Nefertiti (Imagem 05). Entretanto isso não é verdade, como bem salientou Tom Hardwick, especialista em arte egípcia e curador consultor do Corredor das Antiguidades Egípcias do Houston Museum of Natural Science (HMNS), no blog do próprio museu: essa dobra não está representada somente nesses dois governantes, mas igualmente em outros indivíduos do período (Imagem 06).

Imagem 04: Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

Imagem 05: Detalhe de rosto de Nefertiti em Talatat. Foto: TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Imagem 06: Ankhesenamon, filha de Nefertiti e esposa de Tutankhamon.

Tom igualmente realizou considerações acerca da imagem do Ay. Ele explicou que de acordo com o argumento do Reeves o Ay, com o seu queixo e papada (Imagem 07), seria na realidade um rapaz gordinho, ou seja, Tutankhamon. Porém o perfil do Ay está muito mais próximo das imagens do vizir do que do jovem rei. Tom salienta especificamente a semelhança entre o nariz e o “queixo duplo” do perfil na KV-62 com outras imagens remanescentes de Ay.

Imagem 07: Detalhe do rosto do vizir e agora faraó Ay na KV-62. Foto: Factum Arte.

O egiptólogo francês Marc Gabolde deu também suas sugestões. Em uma entrevista ao jornal ABC ele apontou que as tais câmaras podem ser nada mais que restos de um projeto de escavação de novas saletas, mas que foi abandonado e elas fechadas. Ele ainda aponta que caso tais câmaras existam de fato, atrás delas poderia estar não Nefertiti, a qual ele acredita ser a Dama Jovem, uma das múmias encontradas na KV-35 e identificada como mãe de Tutankhamon (e irmã de Akhenaton), mas a sua filha, Meritaton, cuja tumba jamais foi descoberta.

Também temos Zahi Hawass, ex-ministro das antiguidades, que afirmou para o jornal Ahram Online que o “Estudo de Reeves é uma teoria para a fama e publicidade e não é baseada em evidências arqueológicas ou evidências científicas” e complementou sugerindo que as tais linhas vistas nas fotos podem não ser nada mais que somente linhas.

Mas o que deve-se dizer com certeza para o (a) leitor (a) é que ainda não se pode falar em existência de câmaras, já que é necessário fazer uso de um radar para confirmar ou não a existência de tais salas ou saletas secretas.

Fontes:

Two Hidden Chambers in Tutankhamun’s Tomb Revealed by Radar. Disponível em < http://egyptianstreets.com/2015/10/01/two-hidden-chambers-in-tutankhamuns-tomb-revealed-by-radar/>. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Radar reveals two new rooms in Tutankhamun tomb. Disponível em <  http://www.bbc.com/news/world-middle-east-34410720 >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Egipto confía en desvelar este año el misterio de la tumba de Tutankamón. Disponível em <  http://www.elmundo.es/ciencia/2015/10/01/560d2548e2704e895c8b4592.html >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

“Si hay una cámara secreta en la tumba de Tutankamón es más probable que esté Meritatón que Nefertiti”. Disponível em <  http://www.abc.es/cultura/20150929/abci-camara-secreta-tumba-tutankamon-201509281011.html >. Acesso em 29 de setembro de 2015.

Inspection of King Tut’s Tomb Reveals Hints of Hidden Chambers. Disponível em <  http://news.nationalgeographic.com/2015/09/150928-king-tut-tomb-door-nefertiti-archaeology-egypt/ >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Search for tomb of ancient Egypt’s beauty Nefertiti gains momentum. Disponível em <  http://www.japantimes.co.jp/news/2015/09/30/world/science-health-world/search-tomb-ancient-egypts-beauty-nefertiti-gains-momentum/#.Vg0tZvlViko >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Los secretos que esconde Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/la-aventura-de-la-historia/2015/09/30/560bcf0eca4741597e8b4584.html >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Nefertiti’s tomb hiding behind King Tut’s?. Disponível em < http://www.cbsnews.com/videos/nefertitis-tomb-hiding-behind-king-tuts/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

INTERVIEW: Nicholas Reeves ‘60% sure’ ahead of Nefertiti announcement. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/151753/Heritage/Ancient-Egypt/INTERVIEW-Nicholas-Reeves–sure-ahead-of-Nefertiti.aspx >. Acesso em 30 de setembro de 2015.

Ancient Luxor tomb reopens in November. Disponível em <  http://www.egyptindependent.com/news/ancient-luxor-tomb-reopens-november-minister >. Acesso em 29 de setembro de 2015.

3D Scanning the tomb of Tutankhamun. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=hooUIumZQjk&feature=youtu.be >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

The tomb of Nefertiti, concealed within Tut’s?. Disponível em < http://chrisnaunton.com/2015/08/16/the-tomb-of-nefertiti-concealed-within-tuts/ >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Is Nefertiti still buried in Tutankhamun’s tomb? Archaeologists examine a new theory. Disponível em < http://blog.hmns.org/2015/10/is-nefertiti-still-buried-in-tutankhamuns-tomb-archaeologists-examine-a-new-theory/ >. Acesso em 05 de outubro de 2015.

Archaeologist says Nefertiti’s resting place could be found; Hawass calls study ‘speculative’. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/137646.aspx >. Acesso em 28 de setembro de 2015.

Em breve: Novas peças da tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Faraó Tutankhamon em Imagem parietal de seu túmulo.

Faraó Tutankhamon em Imagem parietal de seu túmulo.

O Egyptian Museum do Cairo unido com o Römisch-Germanisches Zentral Museum de Mainz, a University of Tübingen e o Cairo Department of the German Archaeological Institute estão trabalhando para restaurar e exibir um grupo de artefatos de folhas de ouro ainda inéditos pertencentes a KV-62, tumba de Tutankhamon.

O faraó Tutankhamon ficou conhecido no mundo inteiro após a descoberta da sua tumba praticamente intacta em 1922. De lá foram catalogados centenas de artefatos, alguns dos quais jamais entraram para exibição, a exemplos destas folhas de ouro.

A notícia foi anunciada na página do DAI Kairo – German Archaeological Institute Cairo, no Facebook.

 

Tutankhamon ficará disponível em 2011

Dr. Zahi Hawass anunciou para o Discovery News que a determinação de fechar a KV-62, o sepulcro do faraó Tutankhamon, este ano não irá ocorrer. De acordo com ele este é “um plano de longo prazo que não foi decidido ainda”, o tal plano diz respeito ao projeto de 10 milhões de dólares chamado de “Vale das réplicas”. No entanto ele já anunciou o destino da múmia quando a KV-62 em fim for fechada “A múmia ficará dentro da tumba”, declarou ao Discovery News.

 

Fonte:

King Tut’s Tomb to Remain Open : Discovery News. Disponível em: <http://news.discovery.com/archaeology/king-tuts-tomb-to-remain-open.html>. Acesso em 21 de Janeiro de 2011.

Túmulo do faraó Tutankhamon permanecerá aberto em 2011.

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Algumas palavras sobre Ankhesenamon… Gosto desta frase, pois é mais ou menos assim que Howard Carter inicia sua descrição da rainha em seu livro “A descoberta da tumba de Tutankhamon” [1] publicado pouco tempo após o achado. Ele, que foi o ator principal da peça que foi a descoberta do sepulcro deste famoso faraó, já tinha percebido o potencial da rainha Ankhesenamon, nome que dez anos mais tarde seria homenageado no filme “A Múmia” (1932). Mas cá entre nós, esta mulher tem algo que de fato nos fascina.

Devo mencionar que recebo um bom número de recados de pessoas fazendo verdadeiras declarações de amor a esta figura tão negligenciada na história egípcia e posso dizer, sem receio algum, que me sinto privilegiada por receber tais mensagens dos fãs dela, pois, não é só um sinal de que o meu trabalho está sendo recompensado, mas também porque nos últimos anos me tornei também uma de suas admiradoras. Talvez seja daí que partimos do pressuposto de que temos que esquecer a história do “pesquisador neutro”. Eu me vi tão envolvida com a vida dela que não posso simplesmente chamá-la de “meu objeto de estudo” ou olhar para suas imagens e tratá-la como se fosse um rato de laboratório. Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos, ao ponto de ter recebido, com o seu irmão, o direito a governar o Egito ainda quando infantes.

Ankhesenamon (ilustração cortada). Foto: Araldo de Luca.

“Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos (…)”

Apesar de hoje nos parecer um equívoco colocar crianças no poder não era um absurdo para algumas sociedades antigas, dentre elas a egípcia. Por viverem em um mundo totalmente diferente do nosso em termos de ideais, Ankhesenamon e seu esposo eram reverenciados como deuses, embora o palácio ainda se recuperasse do trauma do reinado do faraó anterior, Akhenaton. Como podemos ver o jovem casal real não era um simples par de crianças, pois estavam nesta condição de deuses viventes na terra e recebiam orações de pessoas que desejavam que seus corpos vivessem para sempre. Este era o quadro da época em que Ankhesenamon e Tutankhamon começaram o reinado, mas se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Foto: Lionel Leruste. 2007.

Por muito tempo imaginei como seria possível alguém conseguir adorar outra pessoa (e não falo de Hollywood, ou coisas do gênero), acreditarem que a existência de outro alguém é muito mais importante do que a sua. Relutei um pouco e acredito que neste momento consigo entender. Odeio fazer analogia entre sociedades, mas sendo que agora me é possível: se lembrarmos de Sei Shônagon (Japão) e sua imperatriz Sadako ou da Madame de Noailles e sua exorbitante etiqueta para com a casa real francesa cremos que estas duas figuras acreditavam fielmente que os seus senhores eram enviados divinos e se sentiam extremamente privilegiadas por estar próximos a eles. Shônagon, por exemplo, chega a quase se sentir imoral ao olhar para os imperadores.

“(…) se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.”

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

Mesmo com todo o apelo divino a rainha naturalmente já tem para si um clamor e amor pela a vida sem igual e uma naturalidade e frescor que é tão difícil de encontrar em muitas de suas antecessoras e sucessoras, esta impressão talvez venha dos resquícios da Era Amarna que ainda rondavam a arte palaciana durante o reinado de Tutankhamon.

É incrível como ela ganhou tantos adeptos ao longo dos milênios, desde Tutankhamon a gente comum de alguma cidade em um país qualquer. Depois de quase três anos não consigo parar de me espantar com o tamanho carinho que as pessoas sentem pela Ankhesenamon, uma rainha morta a mais de três milênios, mas que parece continuar viva nos corações de milhares de admiradores.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Giuseppe. 2000.

[1] Howard Carter inicia a frase com “Agora, uma palavra sobre a sua esposa”. Esta passagem se dá no capítulo especial sobre o rei e sua rainha.

Tutankhamon por todos os lados

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Esta minha semana foi particularmente conturbada, desde a segunda estive mais ansiosa do que nunca com os resultados do exame de DNA de Tutankhamon que é prometido desde 2008, são dois anos, uma longa espera. Ocorreu primeiramente uma serie de mudanças de data para liberar o resultado, o que já era até que esperado, afinal uma pesquisa de tal magnitude pode ter vários imprevistos. Foi dito que seria liberado no dia 16/02/2010 embora outras fontes tenham dito que seria em 17/02/2010. Independente a notícia se espalhou no dia 17/02 e o mundo ficou olhando extasiado para a internet enquanto as informações se multiplicavam. O faraó Tutankhamon, mesmo após quase noventa décadas, sabe ainda chamar a atenção.

 

Tutankhamon viveu durante a XVIII Dinastia e reinou até os 18 a 19 anos de idade.

Durante este tempo estive esperando o resultado do exame porque ele traçaria o perfil genético de Tutankhamon e dos fetos do sexo feminino encontrados com ele (que se provou serem suas filhas) e assim tentar encontrar seus parentes entre corpos reais do seu período que ainda não tinham sido identificados. A rainha Ankhesenamon ainda não tinha sido encontrada, logo ela faz parte na preferência pela a procura. Passei estes dois anos esperando, mas infelizmente a espera não acabou.

Foram identificados os pais de Tutankhamon como sendo o esqueleto encontrado na KV-55 (que quase seguramente é de Akhenaton) e a múmia mais nova encontrada na KV-35 (A que em 2003 foi proposta como Nefertiti, mas se provou como sendo muito mais nova que a rainha e é uma das irmãs de Akhenaton). A múmia da senhora mais velha da KV-35 é a rainha Tiye, avó de Tutankhamon.

Múmia da KV-35 identificada como sendo a rainha Tiye, e avó de Tutankhamon.

Múmia da KV-35 identificada como filha de Tiye e mãe de Tutankhamon. Ainda não se sabe o seu nome.

 

Duas múmias encontradas na KV-21 foram também submetidas ao exame, não se sabe quem são, acredita-se que uma delas possa ser Ankhesenamon. Mas é aí que começa a má noticia: uma delas possui maior probabilidade de ser a rainha, mas para uma confirmação segura não há mais dados legíveis no material.

Extrair DNA de corpos tão antigos não é tarefa fácil por diversos fatores, dentre eles a contaminação do material genético e do material ser antigo. Como um resultado seguro é difícil de se obter o Supremo Conselho de Antiguidades do Egito proibiu este tipo de exame por alguns anos, mas o retomou de forma quase insegura e cética. Para que nesta situação não ocorresse o risco de dar um resultado contraditório a equipe responsável pela a análise do material de Tutankhamon se dividiu em subgrupos, onde fariam o exame independentemente. Desta forma o resultado acabou sendo praticamente incontestável.

Depois de anos de especulação a malária, ao lado de uma infecção óssea, foi o veredicto para o rei, mas as pessoas não vão parar de se questionar sobre a sua morte, vão continuar imaginando e especulando. Da mesma forma que foi apontada na década de 60 como causa de seu falecimento uma pancada na cabeça ele poderá ganhar outra causa de morte daqui a algumas décadas, mas por enquanto, com o maximo da tecnologia do nosso tempo este resultado já é bem abrangente e seguro.

Quanto a Ankhesenamon a espera continua.

Um programa da Discovery Channel denominado KING TUT Unwrapped será veiculado este próximo domingo nos EUA (sem previsão para passar no Brasil).

Saiba mais sobre o assunto:

Os Escândalos da Arqueologia Forense com Múmias e Esqueletos Egípcios, 19/02/2010 < www.arqueologiaegipcia.com.br/texto_antrop_escandalos.html>
Pesquisa sobre a terceira princesa de Amarna, 19/02/2010 < www.arqueologiaegipcia.com.br/texto_pesquisa_ankhesenamon.html>

Fontes das imagens:

Tut: Disease and DNA News, 19/02/2010 < http://www.archaeology.org/online/features/tutdna/>