Tumba recém descoberta no Egito revela múmias e máscaras mortuárias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Hoje mais cedo, autoridades do Ministério de Antiguidades do Egito revelaram para imprensa detalhes de uma tumba recém-descoberta em Draa Abu-el Naga (Luxor). A sepultura pertenceu a um casal: O homem chamava-se Amenemhat, um ourives do deus Amon e a mulher era chamada de Amenhotep. Eles viveram durante a 18ª Dinastia, mas o túmulo foi utilizado em outros períodos, tais como a 21ª e a 22ª Dinastia.

No local foram achados sarcófagos, estatuetas, potes cerâmicos e outros artefatos. Restos mumificados também estão presentes e dentre eles estão as múmias de uma mulher e seus dois filhos adultos. Máscaras mortuárias pertencentes a quatro oficiais igualmente foram encontradas.

A entrada da tumba foi descoberta no pátio de outra sepultura e ela leva para uma câmara quadrada. Lá dentro existe uma representação do casal no interior de um nicho. Estas estátuas são feitas de arenito e estão parcialmente danificadas. Entre as suas pernas está a representação do filho do casal, que de acordo com os arqueólogos que fizeram a descoberta seria algo inusitado, uma vez que o comum eram as filhas ou as noras ser apresentadas dessa forma e não os rapazes.

Apesar dos saques e dos sepultamentos mais tardios, entre os artefatos foram descobertos objetos do casal.

Fontes: 

Newly unearthed ancient tomb with mummies unveiled in Egypt. Disponível em < http://edition.cnn.com/2017/09/09/africa/egypt-luxor-ancient-tomb/index.html?utm_content=bufferd2214&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer >. Acesso em 09 de setembro de 2017.

Tomb of Pharoah’s goldsmith who died 3,500 years ago is discovered in Luxor in ancient civil service cemetery. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/news/article-4868124/Tomb-Pharoah-s-goldsmith-discovered-Luxor.html#ixzz4sEE4fxvZ >. Acesso em 09 de setembro de 2017.

Várias múmias foram descobertas em tumba egípcia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ontem, dia 8 de setembro (2017), o Ministério de Antiguidades do Egito anunciou que hoje irá revelar para a imprensa uma tumba com várias múmias em seu interior, em Draa Abu-el Naga (Luxor). Ela está próxima a de um oficial da 18ª Dinastia (Novo Império) chamado Userhat (– 157 –), a qual a sua redescoberta foi revelada em meados de abril deste ano (2017). O AE chegou a noticiar este acontecimento, clique aqui para ler o post. Na época tinha sido explicado para a imprensa que existiam mais duas sepulturas no local. Aparentemente é uma delas o foco da coletiva que ocorrerá na manhã de hoje.

Artefatos encontrados na tumba de Userhat. Foto: Luxor Times.

Não foram revelados muitos detalhes do que foi encontrado, exceto que a visada sepultura provavelmente pertenceu a um sacerdote importante e que a sua escavação ainda está em andamento. Entretanto, vários ushabtis, máscaras mortuárias e outros artefatos feitos de cerâmica e faiança foram descobertos. No local igualmente foram encontrados vários restos humanos mumificados.

Esta notícia está sendo recebida com muita expectativa pelos pesquisadores e espera-se que em algumas horas mais novidades sejam reveladas.

 

Fonte:

Exclusive: Egyptian archaeologists discover 3500 years old tomb contains many mummies. Disponível em <http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/09/exclusive-egyptian-archaeologists.html?utm_content=buffer2fa9d&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer >. Acesso em 08 de setembro de 2017.

 

Explorando os templos de Karnak e Luxor

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Waset, hoje chamada de Tebas, foi durante uma parte da história faraônica o centro econômico e administrativo do Egito. Seu auge se deu no início do Novo Império, na 18ª Dinastia, quando o seu deus padroeiro, Amon, virou divindade suprema, recebendo, inclusive, um sincretismo com Rá, divindade solar primordial, tornando-se Amon-Rá.

Foi em Tebas onde foram erigidos dois grandes complexos de templos que existem até hoje: Karnak e Luxor.

KarnakColunas de Karnak

Infelizmente nem todos possuem dinheiro para poder ir ao Egito e visitar estas estruturas pessoalmente, mas sempre existe alguém na internet disposto a compartilhar sua experiência. Abaixo estão dois vídeos onde é possível conhecer um pouco mais esses dois complexos, mas a partir do ponto de vista de um turista comum. Em ambos o visitante só caminha passando pelas estruturas arquitetônicas. É realmente bem interessante. Confira a seguir.

Karnak:

Nele foram encontrados templos datados da 12ª Dinastia até o Período Romano. É composto por construções dedicadas a Amon, Montu, Mut e Khonsu.

Luxor:

Possui um templo dedicado a Amon e construções datadas da 18ª Dinastia até a época do reinado de Alexandre Magno.

Foi aberta para o público a tumba de Nakhtamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Foi anunciada há algumas semanas que a tumba de um homem chamado Nakhtamon, que viveu onde atualmente é Deir el-Midina, será aberta para o público. Ela é uma das sepulturas monocromáticas da necrópole de Tebas, estando decorada com desenhos coloridos em amarelo, branco, preto e vermelho [1].

Além dos belos desenhos em suas paredes, outro detalhe que chama bastante atenção é que a sepultura possui uma entrada com formato piramidal, algo que foi utilizado por alguns nobres durante o Novo Império. Essa mini pirâmide é a parte que nós arqueólogos chamamos de “superestrutura”, enquanto que a câmara funerária é a “subestrutura”. Caso queira saber um pouco mais sobre essas mini pirâmides eu mostrei uma no post “A arquitetura dos faraós: túmulos e moradias”.

Mais um detalhe interessante é que o sepulcro possuiu outrora um pátio com um pórtico que abrigava a estátua [2].

Sobre Nakhtamon:

Esse homem viveu entre os reinados de Ramsés II e Merenptah e possuía o título de “Servente do Lugar da Verdade”. Conhece-se também os nomes dos seus parentes: seus pais eram Piay e Nefertka; sua esposa Nubemshaset e seus filhos chamavam-se Amenemopet e Piay. Ele também tinha três irmãos. Dois deles as tumbas são conhecidas: Ipuy (TT217), Neferrenpet (TT336) e Neferhotep [1].

Fontes:

[1] Se abre al público la tumba TT335 (Najtamón). Disponível em < https://www.aedeweb.com/actualidad-aede/se-abre-al-publico-la-tumba-tt335-najtamon/ >. Acesso em 03 de março de 2017.

[2] Najtamón túmulo TT 335 – Deir el Medina. Disponível em < http://egiptologia.org/?page_id=1240 >. Acesso em 03 de março de 2017.

É anunciada a descoberta de estátua da princesa Ísis

Por Márcia Jamille | @Mjamille Instagram

 

Foi anunciada esta manhã (07/03/14) a descoberta de uma estátua da princesa Ísis, filha do faraó Amenhotep III. O artefato possui 170 cm de altura e 52 cm de largura e foi encontrado em Kom Al Hitan. A constatação é de que a imagem fazia parte de um colosso de cerca de 14 metros que estava locado em frente ao Terceiro Pilono do Templo Funerário de Amenhotep III.

Estátua da princesa Ísis, filha de Amenhotep III, descoberta em Kom El Hitan. Imagem disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2014/03/amenhotep-iiis-daughter-statue.html >. Acesso em 07 de março de 2014.

A figura está bastante danificada, mas ainda foi possível ler os títulos da princesa: “Grande Esposa Real” e “A amada de seu pai”.

A descoberta foi realizada pela equipe da Dra. Hourig Sourouzian, diretora do projeto e que também encontrou estátuas colossais de Amenhotep III no local em meados de 2010 e 2011.

Referência:


Amenhotep III’s daughter statue discovered in Kom El Hitan. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2014/03/amenhotep-iiis-daughter-statue.html >. Acesso em 07 de março de 2014.

Museu Casa de Howard Carter (Museum Howard Carter’s House)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

 

A casa do arqueólogo Howard Carter, o responsável pela descoberta da tumba de Tutankhamon em 1922, está localizada no lado oeste de Luxor, um pouco antes da entrada para o Vale dos Reis e esteve por longo período sem uso. Para contornar este problema, durante a gestão do Dr. Zahi Hawass no SCA foi decidido que o local seria transformado em um museu onde os visitantes poderiam caminhar por suas salas, escritório, estúdio de fotografia, cozinha e quartos [1].

A importância desta residência se dá pelo o momento histórico ao qual ela fez parte: foi lá que Carter ficou hospedado durante seus trabalhos de catálogo dos artefatos da tumba, que provavelmente algumas das fotografias do túmulo foram reveladas e onde realizou praticamente todas as suas anotações das impressões que ele tinha do sepulcro, dos funcionários, visitantes, dos métodos de pesquisa e por fim acerca do próprio Tutankhamon.

Abaixo fotografias do local:

Casa do Arqueólogo Howard Carter em Luxor. Disponível em . Acesso em 05 de outubro de 2013.

Casa do Arqueólogo Howard Carter em Luxor. Disponível em < http://worldoutthere.net/luxor-guide-our-egypt-insiders-top-five >. Acesso em 05 de outubro de 2013.

 

Escritório de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Escritório de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em < http://www.tripadvisor.co.uk/Attraction_Review-g294205-d1637143-Reviews-Howard_Carter_House-Luxor_Nile_River_Valley.html >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Escritório de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Escritório de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em < http://enjoyluxor.wordpress.com/tag/lord-carvarnon/ >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Uma das salas de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Uma das salas de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em < http://androidtravel.com/mustsee/showPlace.php?id=25436&name=Howard%20Carter%20House, >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Detalhe de parede na casa de Howard Carter em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Detalhe de parede na casa de Howard Carter em Luxor. Disponível em < http://enjoyluxor.wordpress.com/tag/lord-carvarnon/ >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Objetos na casa de Howard Carter em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Objetos na casa de Howard Carter em Luxor. Disponível em < http://enjoyluxor.wordpress.com/tag/lord-carvarnon/ >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Máquina de escrever de Howard Carter. Foto: Tim Beddow. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Máquina de escrever de Howard Carter. Foto: Tim Beddow. Disponível em < http://hollisterhovey.blogspot.com.br/2010/11/castle-carter.html >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Cômodo da casa de Howard Carter. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Cômodo da casa de Howard Carter. Disponível em < http://egyptsitesblog.wordpress.com/2010/03/11/castle-carter-deir-el-bahri/ >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Uma das salas de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em . Acesso em 06 de outubro de 2013.

Uma das salas de Howard Carter em sua casa em Luxor. Disponível em < http://enjoyluxor.wordpress.com/tag/lord-carvarnon/ >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

 

Carter faleceu em 1939 na Inglaterra, 17 anos após a tumba ter sido descoberta. A casa então permaneceu em um longo estado de abandono até ter sido reformada e finalmente transforma no museu.

 

Curiosidades:

◘ De acordo com um dos comentários no site Tripadvisor, dentre os objetos pessoais de Carter expostos está o seu diário aberto na página da sua anotação comentando a morte do Lorde de Carnarvon.

◘ Na exposição é possível também encontrar a câmera original de Harry Burton, o fotografo oficial da descoberta da KV-62

◘ A famosa fotografia do Lorde Carnarvon sentado acomodado em uma poltrona foi registrada na varanda da residência.

◘ Em 2009 o Dr. Zahi Hawass anunciou que seria possível a qualquer interessado alugar a casa em 2010 para passar a noite do aniversário da descoberta da tumba de Tutankhamon (4 de novembro) por 20,000 dólares [2].

 

Referências:

[1] Howard Carter’s House and Luxor. Disponível em < http://www.drhawass.com/blog/howard-carters-house-and-luxor >. Acesso em 05 de outubro de 2013.

[2] Opening of the Carter Dig House, Luxor, Egypt. Disponível em < http://luxor-news.blogspot.com.br/2009/11/opening-of-carter-dig-house-luxor-egypt.html >. Acesso em 06 de outubro de 2013.

Cemitério é descoberto em um dos templos de Luxor

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

O Ministério das Antiguidades do Egito anunciou esta semana o descobrimento de um cemitério datado entre 664 e 1075 antes da era cristã no interior do templo de Amenhotep II (1291-1550 antes da era cristã) no complexo religioso de Luxor. A descoberta foi realizada por uma equipe italiana de Arqueologia.

No local foram encontrados restos de ataúdes, vários corpos já esqueletizados e doze vasos canopos.

Trabalhador segurando um dos canopos encontrados no local. Imagem disponível em < http://www.abc.es/cultura/20130110/abci-cementerio-luxor-201301101040.html >. Acesso em 10 de Janeiro de 2013.

Canopos encontrados no local. Imagem disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/62200.aspx >. Acesso em 10 de Janeiro de 2013.

Fonte da notícia: Hallan un cementerio de hace 3.000 años dentro de un templo faraónico en Luxor. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/20130110/abci-cementerio-luxor-201301101040.html >. Acesso em 10 de Janeiro de 2013.

A análise dos talatats de Akhenaton

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A análise dos talatats de Amenhotep IV: A resposta dada por um vestígio em contexto [1].

Akhenaton e sua filha Meriaton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Em 1926, enquanto ocorria a reforma no complexo de Karnak, foi encontrado dentro de pilonos do Templo de Amon pedaços de pedra com figuras deformadas. Era de um santuário do faraó Amenhotep IV (em grego Amenófis IV) [2] que foi outrora desmontado para tornar-se entulho de preenchimento de obras posteriores a sua morte. Este achado acabou revelando o que foi uma destruição intencional e sistemática de todo o reinado de um governante pouco querido, mas ironicamente, esta atitude que procurava apagar de vez este rei da história foi o que o preservou para a posterioridade.

A obra de restauração encomendada pelo o Serviço de Antiguidades Egípcio, e patrocinada pela a França, estava sob a direção do arqueólogo Henri Chevrier, que durante a exploração recuperou do esconderijo cerca de 20.000 blocos que mediam quase três palmos, o que lhes proporcionou o nome de “talatat” (“três” em árabe). Logo se percebeu que estes artefatos, que continham várias imagens rituais e “cotidianas” retratadas, faziam parte de outra estrutura mais ampla, pois tinham cenas que pareciam poder se encaixar com alguma outra perdida.

Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 81. Sobre o peso: Documentário “Expedições de Josh Bernstein: Amarna”, da Discovery Channel.

É fato que ninguém, a princípio, soube explicar o que afinal aquilo significava, mais vestígios com o nome de Amenhotep IV tinham sido encontrados em outros pontos, inclusive provas de que alguns colossos deste mesmo rei tinham sido adulterados de seus lugares. De acordo com a análise, as figuras que estavam ali tinham sido derrubadas de seus pedestais (O’CONNOR et al, 2007, p. 84). Até mesmo o rosto do faraó e sua esposa, retratados nas pedras encontradas nos pilonos, foram mutilados.

Apesar do ato de violência contra a figura de Amenhotep IV os talatats, segundo o escritor e egiptólogo Christian Jacq, foram guardados de forma sistemática, ele ainda afirma que se os arqueólogos que trabalharam no local fossem “(…) seguindo a lógica do sistema, teria sido fácil então reconstituir os tabiques pelos os quais os mesmos eram compostos” (JACQ, 2002, p. 217), e de acordo com O’Connor (et al) parece que ocorreu um especial interesse em arruinar a imagem da rainha, pois “Os retratos da rainha consorte de Amenhotep , Nefertiti, tinham sido sistematicamente mutilados; alguns deles, amontoados uns sobre os outros, tinham sido evidentemente colocados de modo que a rainha ficasse de cabeça para baixo” (O’CONNOR et al, 2007, p. 82).

O que motivou esta tentativa de esconder da memória egípcia o faraó Amenhotep IV? Esta questão pode ser explicada pelo o estudo dos dezessete anos de reinado do mesmo: Ele não foi criado a principio para ser rei, quem estava destinado a este cargo era o seu irmão mais velho, Tutmés (em grego Tutmoses), mas o rapaz faleceu ainda quando era um garoto. Amenhotep IV, que possivelmente estava treinando para ser sacerdote, já que não era príncipe regente, torna-se o próximo na sucessão. Quando ascendeu ao trono dando início ao seu primeiro ano de reinado, ele já estava começando a dar sinais de que não seguiria os passos dos seus predecessores e mandou que construíssem um templo a um deus pouco citado, mas de forma alguma desconhecido em Karnak [3], Aton.

Neste período de tempo algo ocorreu em Tebas causando consternação em Amenhotep IV [4] que então procurou como uma resposta pratica a criação de uma nova capital onde ele poderia cultuar o deus Aton e ignorar a existência das demais divindades.

Durante os anos de reinado de Amenhotep IV ocorreram muitas baixas na política interna e externa egípcia: a medida que o faraó se fechava na sua nova capital, o Egito perdia terreno para os seus inimigos, e os acordos diplomáticos iam enfraquecendo. Já entre os próprios nativos, nem todos estavam mais contentes com a nova ordem religiosa de Aton o que obrigou Amenhotep IV, que a esta altura já tinha modificado seu nome para “Akenaton”, a mandar que se apagassem o nome do deus rival Amon das paredes de Karnak.

Em duas décadas de reinado, a nova capital já estava pronta e fervilhante, isto se deu porque foram justamente os talatats o que compôs as paredes dos templos e parte dos palácios da cidade de Amenhotep IV e não os grandes blocos de pedra calcária comumente utilizada na construção dos templos egípcios. As casas populares eram feitas de adobe (o que já era totalmente normal em termos de construção). Pareceu que este novo lugar, de onde ele regeria o Egito, seria a brecha para coisas novas: a arte egípcia agora teria parâmetros diferentes, os templos eram feitos de forma nova [5] e até o rei mudou o seu nome para Akenaton no dia da inauguração do local como se fosse a abertura para um Egito totalmente novo. Outro motivo que causou descontentamento foi o fato de que Akenaton dava poucos donativos aos templos dos demais deuses, ao contrário dos templos de Aton que sempre recebia em estupores (CARREIRA, 2004).

Após a sua morte, porém, a sua capital que se chamava Aketaton (“Horizonte de Aton”) foi abandonada, os seus sucessores provavelmente tiveram problemas para manter a sua “revolução”. Primeiramente ele foi substituído por sua filha Meritaton e uma figura o qual pouco se sabe chamado Smenkhará, mas os dois somem dos registros e logo vemos surgir nas fontes documentais Tutankhaton e Ankhesenpaaton que eram crianças na época cuja coroação ofereceu a brecha para o restabelecimento dos antigos deuses. Assim, é erguida a “Estela da Restauração”, em que o novo faraó apresenta-se como apaziguador e critica a atitude do outro governante ao deixar os templos e deuses abandonados. Desta forma, para voltar a normalidade egípcia, os nomes das crianças são mudados para Tutankhamon e Ankhesenamon. De forma irônica, igualmente a Amenhotep IV, que optou por mudar o próprio nome para dar início a uma nova era, os seus filhos precisaram de semelhante atitude para dar um fim a mesma.

Agora os arqueólogos talvez tivessem uma explicação para a atitude de se querer apagar de vez um faraó da história do país, mas restava saber quem era o autor da ação contra Amenhotep IV.

As pesquisas com as pedras continuaram a decorrer até que em 1965 que um diplomata norte americano aposentado chamado Ray Winfield Smith utilizou um computador para tentar montar o grande quebra-cabeça, a ideia compunha-se de formar um banco de dados com fotos dos talatats, tanto quanto fosse possível, já que alguns estavam em coleções estrangeiras. Assim teve início o “Projeto Templo de Akenaton” que tempos depois sob a coordenação do egiptólogo canadense Donald Redford fez escavações em Karnak, onde encontrou mais estruturas que denunciavam os primórdios do monoteísmo em Tebas e claro, o esforço para erradicá-lo. As escavações arqueológicas revelaram que o Templo de Aton foi desmontado e preencheu os pilares do Grande Templo de Amon, e literalmente os limites deste último passa por cima do negativo do outro.

Planta do hipostilo e negativo do templo de Akhenaton. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 84)

Funcionários egípcios trabalham em remoção dos talatats no 9º Pilone. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 85.

Exemplo de Talatats. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 87.

A Arqueologia apontou outro fato importante: a pessoa que ordenou a depredação do templo foi o sucessor de Ay, que por sua vez foi sucessor de Tutankhamon. Supõe-se que Ay poderia ser pai de Nefertiti [6], o que já seria uma desculpa para que ele pudesse acender ao trono, no entanto quem o substitui é o general Horemheb que não tem vínculos reais. Para tentar entender por que Horemheb pôde se tornar rei se sugeriu que sua esposa Mutnodjmet seria irmã de Nefertiti. Sabe-se que ele foi o responsável por tentar excluir Amenhotep IV da memória egípcia porque um pedaço de arremete com o seu selo foi encontrado dentre os talatats. Seus motivos podem ter sido semelhantes ao de Tutmoses III anos antes, que necessitou apagar a existência de Hatshepsut dos murais para proteger a acessão do seu filho ao trono [7], como pode ter sido também para “julgar” a faraó que abandonou a normalidade egípcia para recorrer as suas próprias convicções.

Assim sendo, o estudo com os talatats puderam revelar de forma inesperada ocorrências do passado. Não foi só unicamente feita a análise iconográfica ou medições das pedras, mas também a observação do contexto em que elas foram escondidas e até mesmo o olhar averiguador durante a retirada do material revelando assim o principal suspeito de ser o autor daquela obra incomum.

[1] Este texto de minha autoria foi publicado em meados de 2009 no Arqueologia Egípcia, mas foi arquivado posteriormente. Faço aqui uma publicação revisada com mudanças de nomes gregos para o egípcio faraônico.
[2] “Amenhotep” significa “Amon está satisfeito”.
[3] Amenhotep IV e a corte real egípcia já tinha contato com o deus Aton, ele era evidenciado em alguns cultos no palácio de Malqata, que foi construído por Amenhotep III, pai de Amenhotep IV.
[4] Não se sabe o que aconteceu, mas escritos sugerem quem o faraó se aborreceu com algo. O acadêmico da Universidade de Memphis Bill Murnane em entrevista comentou que “Akhenaton não diz com todas as letras o que aconteceu, mas foi algo que o enfureceu” e complementa com “Ele disse que nem ele nem seus ancestrais jamais haviam passado por algo pior” (MURNANE apud GORE, 2001, p. 31).
[5] Não tinham tetos, já que o alvo de culto estava no céu, e não em quartos escuros.
[6] Sua esposa Tey é a ama de leite da rainha Nefertiti, o que não quer dizer que era a sua mãe, já que era costume que as damas mais ricas contratassem mulheres para amamentar seus filhos.
[7] Foi descoberto que a negligência as imagens de Hatshepsut ocorreram cerca de vinte anos depois da sua morte, a dedução então é que Tutmés III precisava reforçar a legitimidade de seu filho Amenófis II. Hatshepsut era quem possuía mais proximidade com a “pureza” real, enquanto que o seu enteado era filho de uma esposa secundaria (BROWN, 2009).

 

Bibliografia:

Brown, Chip. “ O rei está nu(a)”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2009.
CARREIRA, Paulo.Textos da religião de Aton. Revista lusófona de ciência das religiões. Ano III, nº 5/6 (2004), p. 231-262.
CHRISTIAN, Jacq. Nefertiti e Akhenaton (Tradução de Maria Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002
Gore, Rick.“Os faraós do sol”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2001
O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Algumas palavras sobre Ankhesenamon… Gosto desta frase, pois é mais ou menos assim que Howard Carter inicia sua descrição da rainha em seu livro “A descoberta da tumba de Tutankhamon” [1] publicado pouco tempo após o achado. Ele, que foi o ator principal da peça que foi a descoberta do sepulcro deste famoso faraó, já tinha percebido o potencial da rainha Ankhesenamon, nome que dez anos mais tarde seria homenageado no filme “A Múmia” (1932). Mas cá entre nós, esta mulher tem algo que de fato nos fascina.

Devo mencionar que recebo um bom número de recados de pessoas fazendo verdadeiras declarações de amor a esta figura tão negligenciada na história egípcia e posso dizer, sem receio algum, que me sinto privilegiada por receber tais mensagens dos fãs dela, pois, não é só um sinal de que o meu trabalho está sendo recompensado, mas também porque nos últimos anos me tornei também uma de suas admiradoras. Talvez seja daí que partimos do pressuposto de que temos que esquecer a história do “pesquisador neutro”. Eu me vi tão envolvida com a vida dela que não posso simplesmente chamá-la de “meu objeto de estudo” ou olhar para suas imagens e tratá-la como se fosse um rato de laboratório. Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos, ao ponto de ter recebido, com o seu irmão, o direito a governar o Egito ainda quando infantes.

Ankhesenamon (ilustração cortada). Foto: Araldo de Luca.

“Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos (…)”

Apesar de hoje nos parecer um equívoco colocar crianças no poder não era um absurdo para algumas sociedades antigas, dentre elas a egípcia. Por viverem em um mundo totalmente diferente do nosso em termos de ideais, Ankhesenamon e seu esposo eram reverenciados como deuses, embora o palácio ainda se recuperasse do trauma do reinado do faraó anterior, Akhenaton. Como podemos ver o jovem casal real não era um simples par de crianças, pois estavam nesta condição de deuses viventes na terra e recebiam orações de pessoas que desejavam que seus corpos vivessem para sempre. Este era o quadro da época em que Ankhesenamon e Tutankhamon começaram o reinado, mas se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Foto: Lionel Leruste. 2007.

Por muito tempo imaginei como seria possível alguém conseguir adorar outra pessoa (e não falo de Hollywood, ou coisas do gênero), acreditarem que a existência de outro alguém é muito mais importante do que a sua. Relutei um pouco e acredito que neste momento consigo entender. Odeio fazer analogia entre sociedades, mas sendo que agora me é possível: se lembrarmos de Sei Shônagon (Japão) e sua imperatriz Sadako ou da Madame de Noailles e sua exorbitante etiqueta para com a casa real francesa cremos que estas duas figuras acreditavam fielmente que os seus senhores eram enviados divinos e se sentiam extremamente privilegiadas por estar próximos a eles. Shônagon, por exemplo, chega a quase se sentir imoral ao olhar para os imperadores.

“(…) se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.”

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

Mesmo com todo o apelo divino a rainha naturalmente já tem para si um clamor e amor pela a vida sem igual e uma naturalidade e frescor que é tão difícil de encontrar em muitas de suas antecessoras e sucessoras, esta impressão talvez venha dos resquícios da Era Amarna que ainda rondavam a arte palaciana durante o reinado de Tutankhamon.

É incrível como ela ganhou tantos adeptos ao longo dos milênios, desde Tutankhamon a gente comum de alguma cidade em um país qualquer. Depois de quase três anos não consigo parar de me espantar com o tamanho carinho que as pessoas sentem pela Ankhesenamon, uma rainha morta a mais de três milênios, mas que parece continuar viva nos corações de milhares de admiradores.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Giuseppe. 2000.

[1] Howard Carter inicia a frase com “Agora, uma palavra sobre a sua esposa”. Esta passagem se dá no capítulo especial sobre o rei e sua rainha.