Sobre a notícia de papagaios mumificados no Egito: ela é falsa!

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Nos últimos dias começou a circular na internet uma foto mostrando o que parecem ser papagaios mumificados e sempre acompanhada pela legenda “papagaios mumificados, Egito”. Estes compartilhamentos estão surgindo em contas de redes sociais estrangeiras, mas não duvido nada que possam chegar ao nosso Brasil.

A questão é que esta imagem em nada tem a ver com o Egito Antigo e em verdade nem mesmo são múmias! Tratam-se de peças artísticas feita por uma mulher chamada Eline ‘t Sant. Ela fez estes papagaios com látex, tecido, argila, algodão, couro, ossos, acrílico, pigmentos naturais e pinturas [1]. Existem mais dessas pecinhas, só que em diferentes modelos:

E tem em outras cores:

Ou seja: esse é mais um caso celebre de hoax, bait, em palavras simples uma notícia falsa. Sem contar que papagaios têm como habitat florestas úmidas, bosques e matas. Seria no mínimo interessante encontrá-los no deserto do Saara.

 

Fonte:

[1] Eline ‘t Sant – Parrots Installations and Assemblages. Disponível em < http://blog.kiwitan.com/2010/05/eline-t-sant-parrots-installations-and.html >. Acesso em 23 de abril de 2018.

Análise em múmia de ave egípcia revela mais sobre o tratamento animal durante o Faraônico

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das características mais marcantes da civilização egípcia definitivamente foi a sua tradição de mumificar tanto humanos como os demais animais. No caso destes últimos, alguns acadêmicos optam por dividi-los em quatro categorias: Pets, comida para o além, sagrados e de devoção. Os de devoção diz respeito aos que faleceram naturalmente ou foram sacrificados para que os sacerdotes os utilizasse como oferenda para uma determinada divindade. Foram encontrados em sítios múmias de crocodilos, babuínos, gatos, falcões, íbis, touros, cães, etc, todos em diferentes contextos.

Mykreeve/Flickr

Recentemente, durante uma análise de uma múmia de uma ave, pesquisadores, sob a coordenação da zooarqueóloga Salima Ikram, encontraram uma surpresa rara: tal múmia, identificada como um falcão, parece ter sufocado até a morte por culpa de um rato cujo cóccix está em seu esôfago e o restante do corpo jaz no estômago. Também foram encontrados vestígios de, pelo menos, dois outros ratos e ossos de pardal e garras.

— Leia mais sobre animais no Egito Antigo no capítulo Necrópoles para Animais do livro “Uma viagem pelo Nilo”.

Na natureza uma ave de rapina como essa teria comido a sua presa, digerido o que podia e regurgitado partes como os ossos e dentes. Porém, este animal em questão estava tão empanturrado que não teve chance de vomitar, sugerindo para Ikram que ele foi mantido em cativeiro e alimentado à força.

Imagem do CT Scan mostrando os restos do rato no esôfago da ave. Foto: South African Mummy Project Team.

Registros de animais criados em cativeiro e alimentados à força já eram conhecidos, como a citação a seguir deixa claro no caso de um crocodilo sagrado:

O crocodilo sagrado é alimentado em um lago separado, os sacerdotes sabem alimentá-lo e o chamam Sobek. Seu alimento consiste em pão, carne, vinho, que cada um dos visitantes estrangeiros lhe traz. É assim que nosso hóspede, personagem considerado no país, que se havia nos oferecido para servir de guia, teve a precaução, antes de partir para o lago, de apanhar sobre sua mesa um doce, um pedaço de carne cozida e um frasco de hidromel. Encontramos o monstro estendido sobre a margem, os sacerdotes se aproximaram e, enquanto uns lhe afastavam as mandíbulas, outro introduziu goela abaixo o doce, depois a carne, e conseguiu fazer com que ele tragasse o hidromel. Depois disso, o crocodilo se lançou no lago e nadou em direção à margem oposta; mais um outro estrangeiro apareceu, trazendo também sua oferenda; os sacerdotes tornaram-na nas mãos, fizeram a volta do lago correndo e, com o crocodilo dominado, fazem-no tragar da mesma maneira as guloseimas que lhe são destinadas.

— Estrabão (VERCOUTTER, 2002, p 25, 26).

Bovídeos alimentados à força. Foto: STROUHAL, 2007. 117.

A grande diferença é que agora temos um espécime conservado capaz de nos mostrar empiricamente como alguns tratadores de animais durante o faraônico poderiam ser descuidados (ou quem sabe cruéis).

Imagem do CT Scan mostrando os ossos não digeridos. Foto: South African Mummy Project Team.

Esse foi um, entre milhões de animais, que foram cuidados para serem mumificados e oferecidos aos deuses entre cerca de 600 a.E.C a 250 d.E.C. Ele provavelmente foi ofertado ao deus sol, Rá, ou a Hórus, a exemplo de muitos outros da sua espécie.

Esta pesquisa será apresentada em uma publicação da National Geographic (Estados Unidos) em setembro deste ano (2016). Ainda não foi lançada uma previsão para a sua publicação na edição brasileira.

Fonte:

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.
VERCOUTTER, Jean. Em busca do Egito Esquecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.


A notícia sobre essa descoberta foi veiculada no Snapchat da National Geographic. Não foi apontado em qual sítio arqueológico a múmia foi encontrada. Leia também aqui: Look Inside an Ancient Egyptian Bird Mummy. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com/magazine/2016/09/explore-egyptian-bird-mummy/ >. Acesso em 01/09/16.

(Vídeo) 8 curiosidades sobre as múmias egípcias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A busca pela vida eterna é um tema recorrente quando estudamos a religiosidade egípcia e um assunto indiscutivelmente é sempre citado: a mumificação.

Foto via.

Múmias egípcias são fascinantes, isto é inegável, é tanto que elas não se restringem aos debates acadêmicos, estando também na cultura pop através da literatura, filmes, games, HQs e festas à fantasia.

Saiba mais: — O Egito Antigo nos filmes de terror. 

Porém, apesar de serem uma das figuras mais reconhecíveis advindas da antiguidade egípcia, muitas pessoas do público não acadêmico não possuem a oportunidade de conhecer um pouco mais acerca destes artefatos — Sim! As múmias feitas com interferência humana são consideradas artefatos —.

Por isso, separei 8 curiosidades acerca delas e as apresentei em vídeo para o nosso canal lá no YouTube (clique aqui para se inscrever e fazer parte da nossa comunidade).

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E caso tenha sugestões para vídeos não deixe de enviá-las para mim.

(Palestra online) Animais divinos dos faraós

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Temos mais uma palestra agendada e desta vez o tema será sobre os animais que foram cultuados durante a antiguidade egípcia, um assunto extremamente instigante e interessante. O titulo é “Animais divinos dos faraós” e ele estará no ar no dia 10 de outubro (2015).

Mykreeve/Flickr

Animais na antiguidade egípcia é um tema complexo, dado aos diferentes simbolismos associados com eles onde alguns chegavam a um patamar tão alto que para algumas espécies eram dados tratamentos especiais, ganhando, inclusive, necrópoles próprias, a exemplo do cemitério para gatos domésticos e votivos à deusa Batet em Per-Bastet (Bubastis), a necrópole de babuínos e íbis votivos a Thot em Tuna el-Gebel ou a necrópole para canídeos votivos a Anúbis em Saqqara.

O link para o acesso será anexado neste post (e enviado via-e-mail para os participantes unido com a senha) no dia 09/10 e ficará disponível somente do dia 10 de outubro até o dia 16 do mesmo mês.

É necessário que o interessado tenha conta no Youtube para poder realizar o acesso ao conteúdo da palestra.

Abaixo mais detalhes:

Valor: R$ 24,00
Inscrições*: Serão feitas exclusivamente pela internet, através de cartão de crédito** ou depósito bancário (solicitar o dados por e-mail: sitearqueologiaegipcia@gmail.com) até o dia 08/10. Caso queira realizar sua inscrição agora é só usar o botão abaixo:




ou clique aqui.

ATENÇÃO: Aquele que requerer cancelamento da inscrição antes ou no dia em que será veiculada a palestra receberá a devolução de 50% do valor pago. Aos pagantes com cartão de crédito passarão pelas regras do PayPal.


 

Informações importantes:

* As inscrições levam de um a dois dias úteis para serem confirmadas;

** As inscrições feitas em cartão de crédito que não identificarem seu endereço de e-mail devem entrar em contato conosco através do sitearqueologiaegipcia@gmail.com para que possa receber sua senha no dia 09/10.

A palestra não será ao vivo. Esta decisão foi tomada para que todos possam ter uma ótima experiência visual e para evitar imprevistos de última hora.

Não emitirei certificado, mas darei uma declaração de participação para os ouvintes que no intervalo do dia 10 a 16 de outubro enviarem para mim um resumo escrito de no mínimo duas laudas do que viram na palestra.

Múmia de rato será devolvida ao Egito

Tradução e adaptação: Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A Alemanha está devolvendo ao Egito nesta terça-feira (17 de Julho de 2012) um ataúde com a múmia de um rato, que remonta a época Ptolomaica (332 a.C a 30 a.C) retirada ilegalmente do país árabe, informou no domingo passado o Ministério Egípcio de Antiguidades.

Segundo um comunicado do departamento, o sarcófago, de madeira com tampa de gesso esmaltado em ouro, estava exposto no Museu Egípcio da cidade Alemã de Leipzig, onde está conservado em bom estado.

A nota explica que faz um ano que os responsáveis pelo museu começaram a suspeitar de que a peça tinha sido retirara de forma ilegal do Egito, de modo que avisaram as autoridades competentes de seu país e entraram em contato com o escritório de cultura egípcia na Alemanha.

O ataúde com a múmia esteve exposto neste centro alemão desde 1997 e procede do sítio de Tuna al Yabal, próximo da localidade de Al Minia, a uns 250 Km ao Sul do Cairo.

O comunicado diz que o rato para os antigos egípcios simbolizava o povo rendido nos tempos de decadência, enquanto que em outras ocasiões era a advertência dos maus augúrios.

 

Fonte da notícia: Egipto recuperará de Alemania momia de un ratón sacada ilegalmente del país. Disponível em < http://www.abc.es/agencias/noticia.asp?noticia=1211994 >. Acesso em 15 de Julho de 2012.

(Documentário) Nilo, crocodilos e reis

Título: Nilo – Terra de Crocodilos e Reis

Canal: Animal Planet.

Horário: 11h00

Data de exibição: 05 de setembro de 10

Imagem do deus Sobek em Kom Ombo.

 

 

O Nilo, o maior rio do mundo em comprimento, tem escrito sua história por onde passa. Ele deu à humanidade sua primeira grande civilização: O antigo Egito. (Sinopse oferecida pelo canal)

Bubastis: a antiga capital dos gatos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O Egito, ao longo de seus séculos de existência, possuiu várias capitais onde se destacaram Tebas, Mênfis, Akhetaton e atualmente o Cairo. Dentre estas uma floresceu no Baixo – Egito e só teve sua decadência nos primórdios do período cristão: Bubastis.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, duas das cidades mais prosperas da antiguidade egípcia. Sua posição estratégica permitia controlar as rotas de Mênfis ao Sinai e consequentemente as vias que levavam à Síria (MALEK, 2008). Na literatura clássica o local era chamado de Bubasteion, mas dentre os egípcios a cidade era conhecida como Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet”. Já hoje, o lugar chama-se Tell-Basta e é popular pelas pesquisas na necrópole dos gatos. Importantes descobertas foram realizadas nos sítios arqueológicos da cidade como as sepulturas de alguns dos nobres da época do faraó Akhenaton e da tumba semi-rupestre de um dos dignitários de Ramsés II, Netcherouymes, que foi, possivelmente, um dos homens envolvidos no tratado de paz assinado entre os egípcios e hititas.

 

 

Relevo com imagem do faraó Osorkon II durante a festa 'heb-Sed'. Terceiro Período Intermediário, XXII Dinastia. Foto: Dietrich Wildung

 

Sua acessão como sede do governo se deu durante o Terceiro Período Intermediário (cerca de 1076 – 712 a.C, XXI – XXIV Dinastias), num tempo em que várias famílias de diferentes governantes comandaram simultaneamente o Egito. Foram os invasores líbios que transformaram Bubastis na capital, na medida em que a antiga sede, Tebas, entrava em declínio. (SILIOTTI, 2006)

Embora a cidade seja relacionada à deusa Bastet, em sua necrópole também existiam múmias de outros animais além do gato, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico. A figura do gato desempenhava um papel importante na cultura religiosa egípcia: além de representar a doçura ele também poderia ser considerado um dos símbolos do combate do bem contra o mal, já que existem representações de felinos lutando contra a serpente maligna Apophis.

 

Imagem de ruínas de um templo de Ramsés III em Bubastis. Foto: Dietrich Wildung.

 

Tamanha era a estima dos antigos egípcios pelos gatos que quando mumificados o corpo destes animais era depositado em pequenos esquifes de madeira, não raramente com o seu exterior coberto de estuque e pintado imitando-o em vida, e guardados em catacumbas. Devido ao culto muitos deste tipo de múmias eram vendidos a devotos que esperavam que o bichano intercedesse por eles aos deuses, o que acabou por se tornar uma atividade extremamente rentável aos sacerdotes.

 

Esquife de gato na coleção de Eva Klabin. Foto: Sérgio Zales. OBS: foto com o fundo modificado.

 

Bubastis experimentou a decadência com o início da era cristã no Egito, quando as antigas crenças dos faraós tornaram-se blasfêmias. A cidade não mais seria conhecida pelo o culto aos gatos e as pequenas múmias destes felídeos acabaram por ser negligenciadas nos séculos seguintes sendo vendidas como souvenir ou fertilizante e não muito raramente deixadas para traz pelos pesquisadores responsáveis pelas áreas de necrópoles de animais durante parte do século XIX. Apesar de abandonada outrora, hoje a cidade recebe a dedicação merecida por parte da academia, a exemplo da Missão Arqueológica Francesa (MafB) e seu trabalho no local. Já as múmias felinas hoje não são usadas mais como adubo, e sim como importantes objetos de estudo tal como as múmias humanas e até recebem tratamento não invasivo. O progresso no campo da arqueologia não alcançou só homens e mulheres, mas também os animais que conviveram com eles em sua capital.   

 

Referências:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

Culto aos animais no EREARQ-NE

Na próxima terça-feira (13/07/2010) irei apresentar no EREARQ-NE a comunicação “Ligação com os deuses: a criação, culto e mumificação de animais durante a antiguidade egípcia” no período da noite. O EREARQ-NE será realizado no Campus de Laranjeiras onde está localizado o Laboratório do Núcleo de Arqueologia da UFS. Abaixo o resumo da comunicação:

“Ligação com os deuses: a criação, culto e mumificação de animais durante a antiguidade egípcia” apresenta as principais características da criação de animais no Nordeste da África, em especial os que estão ligados aos territórios provenientes da sociedade egípcia antiga.

Do Período Pré-dinástico (Cerca de 5500 a.C. a 3050 a.C.) até a Segunda Dinastia (Período Tinita – cerca de 2920 a.C. a 2649 a.C) as divindades centrais começaram a receber uma forma, ao mesmo tempo em que algumas foram associadas com animais. (…)

 

Mais informações sobre o evento vocês podem ver no link http://erearqne.wordpress.com/