Profanação e romantismo: a verdadeira maldição das múmias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta é a minha tradução integral do texto “Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies” (Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias) de Craig Barker, que é gerente de educação dos museus da Universidade de Sidney. Achei interessante trazê-lo para vocês porque além de falar do uso da imagem de múmias egípcias no cinema e na literatura, faz uma reflexão sobre isso. Então, para os interessados em história do cinema, literatura e claro no Egito Antigo esse artigo será um grande bônus. Aproveito para lembra-los que já traduzi outro texto com um assunto levemente semelhante em “O Antigo Egito e os primórdios do cinema” e fiz minha própria contribuição sobre o tema em “Múmias, múmias e mais múmias no cinema”.

 

Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias

Craig Barker, Gerente de Educação, Sydney University Museums, University of Sydney.

Este mês de junho, o túmulo de antigas ideias de Hollywood vai abrir novamente e apresentar o conto de um antigo túmulo egípcio perturbado por um atrapalhado arqueólogo e/ou um herói de ação-aventura, que inadvertidamente e involuntariamente desencadeia uma maldição.

Esta maldição ressuscitará uma múmia buscando vingança ou uma amante perdida, causando estragos na sociedade contemporânea até que nosso herói possa detê-la. Este ano A Múmia, dirigida por Alex Kurtzman, verá os faraós de Hollywood Tom Cruise e Russell Crowe enfrentarem uma múmia feminina interpretada por Sofia Boutella.

Ouvi isso antes? O filme de Kurtzman é apenas o mais recente de uma linha surpreendente da mumiamania e egiptofilia antes da descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922. Enquanto a cultura popular se deleitava com múmias por mais de dois séculos, na mesma época, as antiguidades egípcias foram saqueadas, desejadas e depois profanadas. No século 19, era até moda sediar as festas para “desenrolar”, onde as múmias eram reveladas e dissecadas como um evento social dentro dos salões vitorianos.

Uma múmia é um cadáver de um humano ou animal cuja pele e órgãos foram preservados. Isso pode ser feito deliberadamente, através de processos de embalsamamento químico, ou acidentalmente, graças ao clima. Várias culturas antigas praticavam a mumificação deliberada, tal como o povo Chinchorro da América do Sul, e os mais famosos, os corpos dessecados do Antigo Egito, que foram meticulosamente preparados para a vida após a morte.

O estudo de múmias tornou-se uma disciplina acadêmica importante e mais continua a ser descoberto. No último mês, vimos a descoberta de 17 múmias em uma necrópole perto da cidade de Minya, no Vale do Nilo, e a descoberta da tumba de nobre do Novo Império em Luxor. Apesar desse nível de atenção acadêmica e meticulosa investigação arqueológica, infelizmente, saques e contrabando de antiguidades do Egito, incluindo múmias, continua hoje.

 

Tudo realmente velho é novo novamente

Com um orçamento anunciado em $125 milhões, filmado principalmente em Oxford e no Museu Britânico, A Múmia é um grande orçamento investido pela Universal Studios. A história sugere que esse filme será um grande sucesso.

Entretanto, a mãe de todos os filmes de múmia permanece sendo o filme original de 1932, A Múmia (The Mummy), estrelado por Boris Karloff; Ele define o modelo para os outros seguir. O sacerdote egípcio Imhotep, simpaticamente interpretado por Karloff, foi mumificado vivo por tentar reviver seu amor proibido, a princesa Ankh-es-en-amon. Descoberto pelos arqueólogos que o ressuscitam lendo do Pergaminho de Thoth, Imhotep acredita que uma mulher moderna, Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), é a reencarnação da princesa e a leva pela Londres moderna[1]. Não é só um monstro, como também um amante incompreendido.

Mais de uma dúzia de filmes se seguiram, a partir da década de 40 (The Mummy’s Tomb), os anos 50 (The Mummy), os anos 80 (The Awakening) e que culminaram com sucesso de bilheteria de 1999, A Múmia, que gerou duas sequencias e um spinoff de franquia prequel[2].

Cada um desses filmes tem fundamentalmente o mesmo enredo. Na versão de 2017, uma mulher é ressuscitada dos mortos em vez de um homem, mas mesmo isso não é novo. Blood From the Mummy’s Tomb (1971) de Hammer apresentou uma múmia feminina (Valerie Leon)[3], que é revivida e depois caminha por aí com poucas roupas para um inverno de Londres.

Valerie Leon em Blood From the Mummy’s Tomb (1971).

De maldições e reis

Por que a múmia é uma tropa popular no cinema de terror? A múmia, pode-se argumentar, simboliza alguns dos nossos medos mais básicos em torno da mortalidade. O apelo duradouro da múmia também pode ser rastreado para a escavação arqueológica que todo mundo no planeta já ouviu falar: o túmulo de Tutankhamon. A descoberta desta tumba por Howard Carter no Vale dos Reis em 1922 fez manchetes internacionais. A tutmania resultante influenciou todo o tipo de cultura popular, desde o design e moda Art Deco, até canções pop e publicidade.

Arquivos da filmagem das escavações de Carter no túmulo de Tutankhamon em 1922.

Uma exposição recente no Museu Ashmolean de Oxford explorou o quão famoso Tutankhamon foi durante esse período-chave da mumiamania. A cobertura de mídia das escavações foi insaciável. Carter teve um acordo exclusivo com o jornal Daily Express[4], que levou outros repórteres a enfeitar suas histórias. Isso levou a relatos de uma suposta (mas inexistente) maldição no túmulo: “A morte vem em asas rápidas para aquele que perturba a paz do rei”. Foi um absurdo, é claro, mas uma vez que o financiador do projeto arqueológico, Lord Carnarvon, morreu no Cairo graças a uma picada de mosquito infectado, a história da maldição decolou mais rápido do que qualquer notícia real. Na cultura popular, múmias e maldições se tornaram irremediavelmente ligadas.

A descoberta de Tutankhamon pelo time de Carter inspirou uma série de relatos ficcionais, de graus variados de fidelidade à história, incluindo o filme The Curse of King Tut’s Tomb (1980), um remake de filme de TV com o mesmo nome em 2006 e a série britânica de televisão Tutankhamun de 2016.

Enquanto Tut perpetuou a loucura de Hollywood por múmias, o fascínio público por maldições antecede a morte infeliz de Carnarvon. Uma série de filmes mudos com temas de múmias foram feitos nos primeiros anos de cinema, incluindo o Cleopatra’s Tomb (1899) pelo cineasta pioneiro George Melies e The Mummy, de 1911. Infelizmente, a maioria destes não sobreviveu.

Havia também uma rica tradição do século XIX de múmias na literatura. As múmias apareceram em tudo, desde trabalhos sérios até penny dreadfuls. Um número de escritores famosos contou histórias que cimentaram a história da maldição, incluindo Lost in a Pyramid: or th Mummy’s Curse (1869) de Louisa May Alcott; Jewel of Seven Stars (1903) de Bram Stoker e Lot No. 249 (1892) de Arthur Conan Doyle.

‘Modern Antiques’ foi uma caricatura de 1806 de Thomas Rowlandson, que satiriza o entusiasmo britânico pelo antigo Egito. Wikipedia.

Outras obras foram além das maldições. Some Words With a Mummy (1845) de Edgar Allan Poe foram um comentário satírico sobre Egiptomania. Havia também romances, talvez melhor tipificados por The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier, em que um jovem compra um pé mumificado de uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, apenas para serem separados pelo tempo.

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

 

A violação do Nilo

Pote de boticário do século XVIII com a inscrição MUMIA do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Wikipedia.

O fascínio europeu pelas múmias egípcias começou há séculos: o “pó de múmia” foi vendido em boticários para uma variedade de fins médicos e afrodisíacos (Shakespeare, a menção a múmias na cena do caldeirão das bruxas de Macbeth).

Enquanto isso, “múmia marrom”, um pigmento colorido feito parcialmente de múmias, era usado na arte europeia (foi particularmente favorecido pelos pré-rafaelitas).

Mas, a egiptomania realmente começou com seriedade no século XIX. Os relatos do explorador britânico de origem italiana, Giovanni Belzoni, de suas aventuras de 1815-8 no Egito tornaram-se lendários, assim como as múmias e outras antiguidades que ele trouxe para Londres.

Seus relatos falavam de entrar em túmulos e os sons cruéis feitos sob seus pés enquanto ele estava sob corpos mumificados.

Cientistas que acompanharam as campanhas egípcias de Napoleão descobriram a pedra de Rosetta, que mais tarde no Reino Unido levaria à decifração de hieróglifos. O turismo egípcio decolou em meados do século XIX. Tudo isso viu um interesse crescente no Egito. Múmias, ou pelo menos restos mumificados, tornaram-se itens valorizados em coleções de museus nacionais e gabinetes pessoais de curiosidades.

O desejo de possuir múmias e outros artefatos egípcios, juntamente com a expansão colonial europeia e o fascínio pelo orientalismo, impulsionaram um enorme mercado de restos humanos e outras antiguidades. Famosamente descrito como “o estrupo do Nilo”, este saque foi em uma escala monumental, literalmente no caso de obeliscos e esculturas gigantes. Egípcios empreendedores estabeleceram lojas de antiguidades para suprir o desejo insaciável de visitantes europeus de possuir o passado.

G.B. Belzoni forçando passagem na segunda pirâmide de Gizé, 1820, gravura à mão. UA1992.24. Coleção de Arte da Universidade de Sydney.

Muitas das múmias terminaram em museus destinados a estudos acadêmicos, mesmo aqui na Austrália. De museus universitários para coleções estaduais para instituições privadas, como MONA, um número surpreendentemente grande de múmias têm feito a este país.

Outros acabaram nas mãos de colecionadores europeus e americanos privados, onde as festas do “desenrolar” públicas e privadas tornaram-se populares. As festas do desenrolar do cirurgião Surgeon Thomas Pettigrew em um Teatro Piccadilly na década de 1820 foram as primeiras do que se tornou um evento popular no meio desse século.

Foi parcialmente por conta da escala dessa perda que levou o Egito a desenvolver uma das primeiras leis de antiguidades do mundo. Promulgada por um decreto de 1835, visava impedir a remoção não autorizada de antiguidades do país.

Múmia de um menino, início do século II dC, de Tebas, Egito. NMR26.1, Nicholson Museum, Universidade de Sydney. Sydney University Museus

Seguiu-se a criação do Conselho Supremo de Antiguidades em 1858 e a abertura do Museu do Cairo cinco anos depois. A inundação das antiguidades egípcias no exterior não parou, mas definitivamente desacelerou e combinada com a ascensão da disciplina acadêmica da arqueologia, viu uma mudança gradual na compreensão da importância do contexto para as antiguidades.

Paul Dominique Philippoteaux, Examen d’une momie – Une prêtresse d’Ammon, óleo sobre tela, Egito, c.1895 – 1910. Peter Nahum at the Leicester Galleries.

O subsequente aperto da legislação no Egito e em outros lugares, seguido da Convenção da UNESCO de 1970 sobre os Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Cultural, criou o ambiente moderno para a investigação ética e arqueológica e a exportação legal de antiguidades.

 

Sem fim para a egiptomania

No entanto, o saque ainda continua a ser um grande problema no Egito hoje, particularmente com o declínio do turismo e as dificuldades econômicas que vieram com a turbulência política após a Primavera Árabe de 2011. O número de antiguidades saqueadas e contrabandeadas do Egito continua a ser extraordinário. Cerca de $ 26 milhões em antiguidades saqueadas foram ilegalmente transportadas para os EUA a partir do Egito apenas nos primeiros cinco meses de 2016.

De acordo com o site Live Science, os guardas das antiguidades foram “abatidos” enquanto protegiam um túmulo antigo e “as múmias foram deixadas de fora no sol para apodrecer depois que seus túmulos foram roubados”.

Roubo e destruição de múmias no local de Abu Sir Al Malaq no Egito. HBO.

O problema está em andamento e varia de sindicatos internacionais de contrabando internacional até os locais tentando aumentar o dinheiro extra. As imagens de satélite demonstram grandes áreas que estão sendo saqueadas sistematicamente.

A escavação não supervisionada pode ser perigosa. Dois escavadores ilegais foram mortos este mês, quando sua casa entrou em colapso sobre seu túnel, o último de vários incidentes. É uma lembrança trágica de quão perto estamos do passado e como a atração das múmias é tão grande hoje quanto a Belzoni.

Enquanto comemos nossa pipoca e gostamos de assistir a batalha de Tom Cruise com os mortos reanimados, vale a pena lembrar que a verdadeira maldição das múmias não é o que elas podem nos fazer na ficção e no cinema, mas sim pela maneira como as profanamos e tratamos na vida real.


Texto original:

Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies. Disponível em < http://theconversation.com/friday-essay-desecration-and-romanticisation-the-real-curse-of-mummies-77476 >. Acesso em 01 de junho de 2017.


Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Minhas notas acerca do texto:

[1] Creio que ocorreu um equívoco aqui, já que a história toda se passa no Egito.

[2] Possivelmente ele está falando de “O Escorpião Rei”.

[3] Lembrando que este filme não é da Universal Studios.

[4] Ele falou que foi esse, mas foi o Times de Londres.

O filme “A Múmia” (2017): comentando o novo trailer

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em pouco mais de um mês o filme “A Múmia” (2017) estará nas telas do cinema do Brasil. No dia 08 de junho o público poderá conferir a nova roupagem do monstro que tanto ajudou a popularizar a cultura egípcia em filmes e desenhos animados.

Recentemente foram liberados mais um pôster e o segundo trailer da produção, que ao contrário do primeiro explica melhor para o público o enredo: agora temos a história da princesa Ahmanet (Sofia Boutella), que após cometer um crime é sepultada viva como punição. Milênios depois ela acaba sendo despertada e começa a espalhar o mal.

Novo pôster. Reprodução.

Agora é a vez de Ahmanet. Foto: Divulgação.

Aqui o protagonista é interpretado pelo Tom Cruise, que viverá um membro das forças especiais que irá para um deserto em busca de terroristas, mas que acaba descobrindo a tumba da princesa. Teremos também a Annabelle Wallis, que interpretará uma arqueóloga e o Russell Crowe vivendo o personagem clássico Henry Jekyll, do livro “O Médico e o Monstro”.

Então, atendendo a pedidos, gravei um vídeo comentando o que, através deste último trailer, eu espero do filme:

Como o leitor Yuri Ribeiro bem lembrou nos comentários do YouTube eu acabei esquecendo de comentar as roupas egípcias. Tudo bem, fica para quando eu comentar o filme completo. E rememoro que já falei sobre as tatuagens da personagem do monstro no vídeo “Franquia de filmes ‘A Múmia’ da Universal Studios”. Deem uma conferida nele também.

A franquia de filmes “A Múmia” da Universal Studios

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando o cinema surgiu no final do século XIX o público já estava, de certa maneira, acostumado com as imagens da Antiguidade egípcia em detrimento da Egiptomania, surgida graças a invasão napoleônica ao Egito em 1798. Por conta disso, alguns filmes lúdicos foram gravados, todos trazendo um passado cheio de mistério, exotismo e misticismo. Essa ainda era a época do cinema mudo.

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

— Saiba mais: O Antigo Egito e os primórdios do cinema

Em 1922 ocorreu a descoberta da tumba do faraó Tutankhamon o que deu um patamar novo para o passado egípcio no mundo ocidental: esse país não era mais somente um lugar cheio de tesouros arqueológicos, para algumas pessoas os seus artefatos poderiam conter a “maldição da múmia”, ideia popularizada pela morte do Lorde Carnarvon, patrocinador da descoberta do túmulo de Tutankhamon.

Paralelamente, a Universal Studios estava investindo em filmes de horror. Duas das suas grandes realizações tinha sido “Drácula” (1931), com Béla Lugosi e “Frankenstein” (1931) com Boris Karloff. Ambos trazendo atrama de homens que voltaram da morte. Foi com um princípio parecido que “A Múmia”, de 1932, estrelado também por Boris Karloff, foi pensado.

Ambientado na própria década de 1930, a fita conta a história do sacerdote Imhotep, que foi sepultado vivo como uma punição por um crime terrível. Ressuscitado no século XX, ele tenta então trazer a sua amada à vida, custe o que custar.

Anos depois foi lançado “A Mão da Múmia” (1940), onde é a vez do antigo egípcio Kharis despertar. O caminho de maldade de Kharis resultou em mais três filmes: “A Tumba da Múmia” (1942), “O Fantasma da Múmia” (1944) e “A Praga da Múmia” (1944).

“O Fantasma da Múmia” (1944). Foto: Divulgação.

Então, com a chegada de 1955, é a vez da comédia “Abbott e Costello caçando múmias no Egito”. Depois dessa produção o público precisou esperar 44 anos para poder ver “A Múmia” (1999) novamente nas telas do cinema, mas agora com um remake do filme de 1932. O personagem Imhotep foi repaginado com magias muito mais poderosas, novos personagens também foram criados. No entanto, a trama central permanece: ele fará de tudo para trazer de volta ao mundo dos vivos a sua amada. Esse novo “A Múmia” gerou duas continuações: “O Retorno da Múmia” (2001) e “A Múmia: tumba do Imperador Dragão” (2008).

“A Múmia” (1999). Foto: Divulgação.

Como é possível ver, esse monstro parece ser uma fonte inesgotável de inspiração. E é exatamente por isso que a Universal irá estrear nesse ano de 2017 um novo “A Múmia”, em que o monstro será uma princesa egípcia chamada Ahmanet.

“A Múmia” (2017). Foto: Divulgação.

— Veja mais: A espera acabou! Saiu o trailer de “A Múmia”, com Tom Cruise e Sofia Boutella

Em menos de 20 anos essa franquia completará 100 e aparentemente continuará a encontrar as gerações seguintes. Arrecadando milhares de fãs ao redor do mundo ela, apesar de apelar para o lado lúdico e muitas vezes errando feio ao representar a cultura faraônica, tem encantado várias pessoas de diferentes idades, algumas das quais acabaram, inclusive, se apaixonando pela verdadeira história do Egito. De um sacerdote egípcio apaixonado a uma princesa egípcia com sede de vingança, até onde o monstro “A Múmia” nos levará? ☥

 

(Filme – Resenha) “A pirâmide” (2014)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

O filme “A Pirâmide” (“The Pyramid”, no original) é uma ficção de terror cuja trama se baseia na ideia da descoberta de uma misteriosa pirâmide de três paredes encontrada no deserto do Egito no auge da Primavera Árabe. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2014.

Filmado em uma mistura de found footage e gravação em terceira pessoa, o enredo nos traz os arqueólogos Nora (Ashley Hinshaw) e Holden (Denis O’Hare), que descobrem uma pirâmide de construção incomum no meio do deserto egípcio através de imagens de satélite. O que chama a atenção da cinegrafista Sunni (Christa Nicola) e o câmera Fitzie (James Buckley) que vão até o sítio arqueológico para poder gravar um especial com a equipe abrindo a tumba pela primeira vez. Porém, assim que eles adentram o local descobrem que sair de lá não será nada simples.

Apesar de algumas loucuras cinematográficas (é de praxe, dificilmente algum filme que queira vender fugirá disso), “A Pirâmide” é um dos pouquíssimos longas que conseguiram usar elementos tão reconhecíveis do Antigo Egito e dos trabalhos de Arqueologia. Dois bons exemplos é a própria descoberta da pirâmide, que me lembra os estudos realizados na pirâmide de Djedfra, que também está localizada no deserto e que cuja pesquisa inspirou um documentário para a The History Channel com mais de duas horas de duração. Outro é a descoberta de sítios arqueológicos com o uso de imagens de satélites ou fotografias aéreas, ferramentas que têm sido utilizadas já há muitos anos. Mas certamente a inclusão desta metodologia no filme foi inspirada por algumas notícias que rolaram na internet e em alguns programas de TV de que pirâmides teriam sido descobertas no deserto egípcio. Infelizmente, tais notícias beiravam ao equívoco.

Foto: Divulgação.

Porém, o filme propõe que alguns arqueólogos são avessos a tecnologia. De fato alguns usam metodologias demasiadamente defasadas, mas isso não é geral. Muitos são extremamente receptivos a novas ferramentas que possam auxiliar na interpretação arqueológica. O problema é saber usar. Aí já é uma outra questão. A desculpa do filme é que usar novas metodologias e ter resultados totalmente diferentes dos alcançados em outras ocasiões implicaria questionar trabalhos de uma vida. Acreditem, existe gente realmente assim, mas novamente este pensamento não é unanime e muitos são ansiosos por novas descobertas.

Sobre o robozinho, o Shorty, há anos pesquisadores tentam utilizar robores com câmeras para entrar em estruturas arqueológicas. Isso, inclusive, foi realizado na pirâmide de Khufu e as imagens foram transmitidas ao vivo para os espectadores em casa pela National Geographic. A pena é que não encontraram nada [1].

Retornando para o enredo, a princípio a pirâmide é associada com o faraó Akhenaton, mas depois corrigem explicando que ela seria de um outro período. Mas só aproveitando a deixa; na época de Akhenaton, o Novo Império, reis não estavam mais sendo sepultados em pirâmides, mas em hipogeus. Somente em duas épocas a alta nobreza foi inumada em pirâmides: durante o Antigo Reino e durante a Baixa Época, quando o Egito esteve sob domínio núbio.

Foto: Divulgação.

E eles fazem um brevíssimo comentário tecendo um paralelo entre o Aspergillus e maldições: Bem no início do filme, quando todos estão esperando a abertura da pirâmide, ocorre uma explosão de um pó verde, que mais tarde nos é revelado que se trata do Aspergillus. Em outro momento, quando todos estão calmos, o Holden, um pouco irritado, diz que nem quer ouvir falar de uma sugestão de maldição. A fala dele tem relação com um acontecimento real; a proposta de que o Lord Carnarvon, patrocinador da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, teria morrido graças a infecção do seu sangue pelo o Aspergillus, isso após ter sido picado por um mosquito e ter machucado o local ao se barbear (- Saiba mais assistindo: “A Maldição de Tutankhamon”). Aqui no Arqueologia Egípcia já até citei a morte de uma turista pelo Aspergillus no texto “(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery”.

Foto: Divulgação.

E foi interessante ver no filme o Ministério das Antiguidades do Egito (MSA) ser citado porque ele foi criado justamente na época da Primavera Árabe de uma forma relâmpago. O Ministério é mencionado porque no enredo ele estava retirando todas as equipes de Arqueologia do país. Porém, na realidade os poucos arqueólogos que estavam trabalhando no Egito foram justamente utilizados como propaganda pelo governo para passar para o mundo que estava tudo sob controle no país. Por outro lado, algumas regiões desérticas estão sob o auspício de militares, então os roteiristas do filme podem ter realizado esta relação, embora, mesmo antes da Primavera, pesquisas nessas regiões eram proibidas devido as próprias manobras do exército.

Na cena do arsenal que eles encontraram dentro da tumba vê-los utilizar o luminol foi no mínimo peculiar. Posso estar errada, mas acredito que esta ferramenta não funciona em artefatos arqueológicos. Deixo em aberto aí para quem tem realmente uma boa experiência na área responder.

Foto: Divulgação.

E claro, temos os anacronismos. Nenhum filme que cite algum assunto histórico está de todo imune a esse tipo de erro. Existiam vários tipos de textos funerários, mas o Livros dos Mortos, que é citado no filme, passou a ser popularizado no Novo Império. Na época das pirâmides os que eram utilizados são os chamados hoje de “Textos das Pirâmides”. Também é dito que os Gatos Esfinges são da Antiguidade egípcia, mas a verdade é que eles não existiam no Egito, esta foi uma licença poética do longa. Este tipo de raça surgiu somente na década de 1960 aqui na América.

Também é citado os maçons como ladrões de tumbas. Não sei exatamente de onde eles tiraram esta ideia, mas creio que deve ter alguma relação com o fato de que alguns maçons eram membros da nobreza dos séculos XVIII, XIX e XX, que, por sua vez, costumavam ser colecionistas.

Considerações finais:

Ao contrário das várias críticas negativas que este filme ganhou em alguns sites, em um sentido muito geral (e ignorando alguns efeitos especiais de um gosto bem questionável) gostei do enredo. A pena é que apesar de ter casado, na medida do possível, tão bem com a Arqueologia e a cultura egípcia faraônica, o final, ao menos para mim com o meu olhar de arqueóloga, foi bem decepcionante. Não posso falar do que se trata, porque é um spoiller, mas eu o cito na conclusão do vídeo que gravei para o canal do Arqueologia Egípcia no YouTube, onde também comento sobre este filme:

Dicas de leituras:

Sobre a pesquisa com robôs dentro da pirâmide de Khufu:

The Secret Doors Inside the Great Pyramid. Disponível em <http://www.guardians.net/hawass/articles/secret_doors_inside_the_great_pyramid.htm>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Robot to Expose Hidden Secrets of the Pyramids. Disponível em <http://www.livescience.com/6860-robot-expose-hidden-secrets-pyramids.html>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Acerca de presença do Aspergillus em sítios arqueológicos:

(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery. Disponível em <http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/05/08/resenha-documentario-a-maldicao-de-tutankamon-da-discovery/>. Acesso em 04 de junho de 2016.


[1] Somente posteriormente conseguiram ver que no pequeno espaço tenham inscrições hieroglíficas ao estilo das que existem em uma das câmaras da própria pirâmide, que apontam os nomes das equipes de trabalhadores que a construiu.

O final de 2014 é o momento do Egito Antigo nos cinemas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quem é egiptomaniaco não tem o que reclamar deste final do ano de 2014. Ao todo três produções inspiradas na temática da antiguidade egípcia estão (ou em breve estarão) nos cinemas mundiais. São filmes que vão desde comédia, drama até terror. Todos já foram citados individualmente aqui anteriormente, mas não custa nada recapitular:

“The Pyramid” (2014)

Produzido por Alexandre Aja e dirigido por Grégory Levasseur, “The Pyramid” (2014) é um filme de terror cuja trama apresenta uma expedição de arqueólogos norte-americanos que descobrem uma pirâmide totalmente diferente de todas as outras que já foram encontradas no Egito. Ao entrarem no monumento tudo indica que as pesquisas no local seriam como outra qualquer, até que coisas estranhas começam a ocorrer, como o desaparecimento de membros da equipe.

O título não possui ainda tradução para o português e não tem previsão de estréia no Brasil, mas já está rodando nos EUA.

 

Clique aqui e veja mais.

“Êxodo: Deuses e Reis” (2014)

Seguindo a onda de filmes épicos bíblicos, Ridley Scott, diretor de Gladiador, está com a responsabilidade da direção de “Êxodo: Deuses e Reis”, que nada mais é que uma adaptação do mito de Moisés (narrado no Antigo Testamento). Infelizmente o filme seguiu algumas inspirações orientalistas e apesar de afirmar que contou com a consultoria de egiptólogos os figurinistas cometeram erros bem gritantes.

A estréia está marcada para o dia 25 de dezembro.

Clique aqui e veja mais.

“Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba” (2014)

O vigilante noturno Larry Daley (Ben Stiller) tentará desvendar o segredo da Placa Dourada do Faraó Ahkmenrah que dá a vida para as peças do Museu de História Natural, mas que está sendo corroída por forças misteriosas, o que consequentemente irá impedir que os personagens do museu possam despertar todas as madrugadas. Para tentar resolver o enigma Larry viaja para Londres e desperta também as peças do Museu Britânico.

O filme já está disponível nos cinemas dos EUA, mas a estréia no Brasil está prevista somente para 2015.

Clique aqui e veja mais.

De todos o que planejo assistir no cinema é com certeza “Uma noite no museu”. Sou fã da franquia e quero ver o filme logo. Quanto aos demais estou totalmente confortável em esperar ver somente quando sair em DVD.

Filme “A Pirâmide” estreia hoje nos EUA

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Produzido por Alexandre Aja e dirigido por Grégory Levasseur, “The Pyramid” (2014) é um filme de terror cuja trama apresenta uma expedição de arqueólogos norte-americanos que descobrem uma pirâmide totalmente diferente de todas as outras que já foram encontradas no Egito. Ao entrarem no monumento tudo indica que as pesquisas no local seriam como outra qualquer, até que coisas estranhas começam a ocorrer, como o desaparecimento de membros da equipe.

O trailer (em inglês):

Curiosidades vistas no trailer:

Naturalmente ainda não assisti ao filme, mas pelo trailer já é possível ver algumas coisas interessantes. São elas:

São feitas referências a maldições que foram criadas pelo roteiro do filme, mas entre elas é citada a “Maldição de Tutankhamon” que de fato foi propagandeada pelos jornais ingleses na década de 1922 após a descoberta da tumba.

Realmente existe uma possibilidade de pessoas serem contaminadas por fungos provenientes de múmias e chegarem a óbito. Alguns pesquisadores acreditam que problemas de saúde contraídos por arqueólogos menos precavidos e turistas (contaminados porque insistem em tocar nas paredes de sepulturas etc) são advindos de tais fungos.

Uma das personagens comenta sobre a existência de “gases tóxicos”. Algumas sepulturas fechadas há muito tempo de fato podem possuir gases que podem fazer mal a saúde, pois contém colônias de fungos.

O filme estreia dia 05 de dezembro nos Estados Unidos, entretanto ainda não tem data de estreia aqui no Brasil.

O terceiro filme da série “Uma noite no Museu” já tem trailer

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Os fãs de “Uma noite no Museu” e “Uma noite no Museu 2” já podem ficar animados, afinal, já saiu o trailer do terceiro filme da franquia, o “Night at the Museum: Secret of the Tomb” (Uma noite no museu: o segredo da tumba).

Nele o vigilante noturno Larry Daley (Ben Stiller) tentará desvendar o segredo da Placa Dourada do Faraó Ahkmenrah que dá a vida para as peças do Museu de História Natural, mas que está sendo corroída por forças misteriosas, o que consequentemente irá impedir que os personagens do museu possam despertar todas as madrugadas. Para tentar resolver o enigma Larry viaja para Londres e desperta também as peças do Museu Britânico. Como pode ser conferido no trailer teremos cenas voltadas para o Antigo Egito. Segue o mesmo:

Não existe uma previsão de estreia para o Brasil, mas o lançamento para os EUA é esperado para Dezembro.

Mais informações (e fotos):
Sneak peek: ‘Night at the Museum: Secret of the Tomb’. Dispoível em < http://www.usatoday.com/story/life/movies/2014/07/27/night-at-the-museum-3-secret-of-the-tomb/12494557/ >. Acesso em 02 de agosto de 2014.

Novo filme “A Múmia” será lançado em 2016

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Universal está planejando estrear em 2016 mais um filme épico sobre um dos seus personagens de horror mais antigos: A Múmia.

Ao contrário das outras versões estreladas por Boris Karloff, Zita Johann (1932), Rachel Weisz (1999, 2001) e Brendan Fraser (1999, 2001 e 2008), esta se passará nos dias de hoje, como comentou Len Wiseman na entrevista que submeteu ao Movieweb:

Filme "A Múmia". 1999.

Filme “A Múmia”. 1999.

“O filme se passará nos dias de hoje. Não tem nada a ver com os filmes de Brendan Fraser. A Múmia é um dos personagens da Universal mais antigos e icônicos. O que me atraiu… A ideia é adotar um tom diferente, uma Múmia como eu nunca imaginaria. Eu pensava em Egito, dunas no deserto e bandagens. Quando ouvi o que eles pretendem fazer, foi chocante” [1].

Esta versão contará com Jon Spaihts, escritor de The Darkest Hour (2011) e Prometheus (2012) e Alex Kurtzman e Roberto Orci, produtores de Star Trek (2009) e Transformers (2007).

“Esta versão será um filme de horror épico. O que aconteceria se encontrássemos uma múmia nos dias de hoje? Achei bem fascinante” [2].

[1][2] Tradução via site Omelete.

“As Múmias do Faraó” só em 15 de Outubro

O filme de Luc Besson que rodaria nos cinemas brasileiros no dia 24 de Setembro teve a sua estréia adiada para o dia 15 de Outubro. “As múmias do faraó” – Les Aventures Extraordinaires d´Adèlec Blanc-Sec (As Aventuras Extraordinárias de Adèlec Blanc-Sec), (2010)- é a adaptação para o cinema dos HQs do cartunista Jacques Tardi.

 

Filme: As múmias do faraó.

 

O filme já tinha sido comentado aqui no site na postagem “(Filme) As múmias do faraó (2010)” e apesar do furor na França os comentários sobre a sua estréia são fracos até mesmo entre os adeptos da Egiptomania.

(Filme) As múmias do faraó (2010)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

 

 

Embora esteja previsto para ser lançado agora em setembro, pouco se tem falado do filme “As múmias do faraó” – Les Aventures Extraordinaires d´Adèlec Blanc-Sec (As Aventuras Extraordinárias de Adèlec Blanc-Sec), (2010)- que foi dirigido por Luc Besson e estreou em 1º lugar na França. Baseado em uma série de histórias em quadrinhos do cartunista Jacques Tardi, o filme, ao menos pelo o que deu para ver pelo o trailer, está recheado das velhas estórias de câmaras secretas e misticismo, mesmo assim talvez seja um bom divertimento para o final de semana.  Sua chegada aos cinemas brasileiros está prevista para o dia 24 de setembro.

 

 

Dando uma breve sinopse, Adèlec quer encontrar uma cura para a doença da irmã, para isto ela vai ao Egito em busca da tumba de um faraó. Quando retorna para a França coisas misteriosas ocorrem em um museu de Paris: múmias voltam à vida assim como um animal pré-histórico.

 

 

Veja o trailer:

 

 

OBS: a total diferença entre o cabeçalho brasileiro e o original é mais uma prova de que os produtores do nosso país sabem escolher um péssimo título para filmes estrangeiros, vide “A Lenda da Lapide de Esmeralda” [The Curse Of King Tut’s Tomb (A maldição da tumba do rei Tut) – 2006]. Felizmente não pecaram com “A Rainha Sol” (2005).