Uma forma de encarar a morte: O que são múmias?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As milhares de comunidades espalhadas pelo mundo — do presente ou do passado mais remoto — tinham cada uma a sua própria forma de tentar entender a morte. Muitas sociedades ocidentais atuais, por exemplo, tentam torná-la “invisível”, excluindo-a do dia a dia, tratando, consequentemente, os assuntos relacionados com ela como um tabu.

Contudo, este não é um pensamento unânime e em algumas sociedades a dor da separação pode ser contornada ou aliviada através de práticas funerárias distintas. Uma delas é a mumificação de cadáveres.

Múmia do faraó Ramsés II. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

A adoção de estruturas funerárias tais como pirâmides ou jazigos costuma apontar para uma resistência à morte e a tentativa de perpetuar, mesmo que simbolicamente, a existência do falecido como uma figura social (SOUZA, 2015). E a mumificação entra aqui como uma destas tentativas de permanência (RADLEY, 1992 apud SOUZA, 2015).

A mumificação pode ser definida como a paralisação do processo cadavérico antes da esqueletização total ou parcial. A intenção de preservar os cadáveres é manter a individualidade depois da morte e ter a pessoa falecido mais próximo do mundo dos vivos.

Embora tenham se popularizado em filmes hollywoodanos e mesmo em documentários como peças de curiosidades, as múmias, quando analisadas do ponto de vista biológico, podem contribuir para o conhecimento arqueológico, proporcionando informações sobre condições de vida, dieta, saúde, modificações corporais (utilização de alargadores, tatuagens, estilos de cortes de cabelos ou penteados, etc), ou sobre produtos de origem animal ou vegetal usados como ornamentos ou vestimenta (cores de tecidos, padrões de costuras, padrões de desenhos, tampões vaginais, sapatos, etc) que por ventura tenham sido conservados com o corpo.

Corpo com mais de 5.000 anos encontrado nos Alpes de Venoste. Estas marcas são tatuagens. Foto: The South Tyrol Museum of Archeology.
Os envólucros de múmias egípcias, por exemplo, dão detalhes da manufatura têxtil. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

Em termos simples, os tipos de múmias são divididos em dois grupos: múmias naturais e múmias antrópicas (AUFDERHEIDE, 2010).

Múmias naturais:

Nesse grupo de múmia entram os corpos preservados total ou parcialmente de forma natural devido a diferentes fatores que podem ter relação com o clima, o tipo de solo, o tipo de morte ou mesmo o tipo de involucro. Alguns exemplos são as múmias de Palermo (Itália), Otzi (Itália), as múmias do vulcão Llullaillaco (Argentina e Chile), múmias Pré-dinásticas do Egito e as Sokushinbutsu (Japão).


O “Homem de Tollund” é um exemplo de múmia natural. Foto: Robert Clark; National Geographic.

Múmias culturais ou antrópicas:

Tendo em vista que a própria denominação “cultura material” tem como objetivo ressaltar os artefatos como resultado do trabalho humano (MATTHEW, 2004 apud SOUZA, 2015), as múmias culturais são consideradas artefatos arqueológicos, já que para serem criadas necessitaram da manipulação humana (AUFDERHEIDE, 2010). São várias as formas de se criar múmias culturais, mas os espécimes mais populares indiscutivelmente advêm do Egito.

A confecção de múmias possui vários motivos que vão desde o religioso ao prático, como foi o caso de alguns dos corpos resgatados da área do naufrágio do Titanic, que foram embalsamados para que pudessem ficar reconhecíveis o maior tempo possível, facilitando assim a sua identificação. Ou dos soldados mortos durante a Guerra Civil Norte-americana.

Homem da época da Guerra Civil Norte-americana sendo embalsamado. Foto: Library Congress.

E nos dias atuais a mumificação ainda é empregada, seja para fins científicos — as múmias feitas durante as pesquisas de Arqueologia Experimental —, para uso estético ou higiênico — fazendo uso da Tanatopraxia — ou para manter a memória do falecido viva, a exemplos de líderes políticos ou religiosos.


Evita Peron. Foto: Getty Images.

Referências bibliográficas:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

SOUZA, Camila Diogo de. As práticas mortuárias na região da Argólida entre os séculos XI e VIII a. C. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, USP, São Paulo, 2010.

SOUZA. Camila Diogo de. Aportes arqueológicos na produção do conhecimento histórico. Vol. XII | n°24 | 2015.

VIDAL, Irma Ason; OLIVEIRA, Claudia; VERGNE, Cleonice. SOUZA, Sheila Maria Ferraz Mendonça de. Mumificação natural na Toca da Baixa dos Caboclos, sudeste do Piauí: uma interpretação integrada dos dados. Canindé, Aracaju, v. 2, p. 83-102, 2002.

17 múmias intactas chamam a atenção para sítio arqueológico egípcio

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Ocorreu há duas semanas o anúncio da descoberta de uma sepultura com 17 múmias intactas perto da vila de Tuna el-Gebel na cidade de Minya. Os corpos provavelmente são de sacerdotes e oficiais. O achado também inclui sarcófagos feitos de calcário e argila, caixões de animais e papiros com inscrições em demótico.

Possivelmente as múmias possuem mais de 1500 anos, sendo assim do Período Greco-Romano, que são os anos finais da era dos faraós.

Khaled Desouki/Agence France-Presse — Getty Images

Khaled Desouki/Agence France-Presse — Getty Images

Mas a descoberta não se resume a isso, já que essa é “a primeira necrópole humana encontrada no médio Egito com muitas múmias“, disse o egiptólogo Salah al-khali ao jornal Telegraphic[1]. Em complemento, esse sítio funerário talvez possua até 32 múmias espalhadas pelas catacumbas da tumba [2]

Khaled Desouki/Agence France-Presse — Getty Images

A sepultura foi detectada ano passado por um time da Universidade do Cairo usando uma tecnologia de radar, cada vez mais comum na arqueologia do país.

Khaled Desouki/Agence France-Presse — Getty Images

A mumificação no Egito:

Embora pareça que a mumificação egípcia foi uma técnica milenar e perfeita, em verdade ela precisou, assim como muitas obras da antiguidade egípcia, da tentativa e erro.  Fora o fato de que ela sofreu notáveis mudanças ao longo dos séculos. Exatamente por isso que uma múmia do, por exemplo, Médio Reino não será totalmente parecida com uma da Baixa Época.

— Veja também: O que são múmias?

Desta forma, essa descoberta em Minya é importante para mostrar mais aspectos da mumificação durante o Período Greco-romano.  Época em que justamente o poder dos faraós começou a cair e a cultura egípcia passou a receber influência da cultura grega e logo depois da romana.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

Archaeologists uncover 17 mummies in central Egypt. Disponível em < http://www.aljazeera.com/news/2017/05/archaeologists-uncover-17-mummies-central-egypt-170513163646866.html >. Acesso em 13 de maio de 2017.

[1] Ancient Burial Chamber Uncovered in Egypt, With 17 Mummies … So Far. Disponível em < https://www.nytimes.com/2017/05/13/world/middleeast/egypt-mummies-burial-site-minya.html?_r=1 >. Acesso em 13 de maio de 2017.

[2] 17 mummies newly discovered buried in Minya cemetery. Disponível em < http://www.dailynewsegypt.com/2017/05/13/17-mummies-newly-discovered-buried-minya-cemetery/ >. Acesso em 13 de maio de 2017.

 

Vasos canópicos + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Durante a antiguidade egípcia a crença, de uma forma geral, era que após a morte os falecidos realizariam uma viagem que os levariam ao paraíso. Entretanto, para que esta jornada pudesse ocorrer, eram necessários alguns procedimentos para dar ao morto a chance de realizar esta passagem. Um deles era que o seu corpo fosse mumificado, situação em que alguns dos seus órgãos seriam postos em recipientes que atualmente são chamados de “vasos canopos” ou “vasos canópicos”.

— Assista também: 8 curiosidades sobre múmias egípcias.

Para falar deste assunto postei um vídeo no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube. Para conferí-lo clique aqui ou assista abaixo. Aproveite e inscreva-se no canal.

Para ocorrer a mumificação era necessário que o corpo fosse ressecado, entretanto, os órgãos possuem muito líquido e para que eles não comprometam o embalsamamento usualmente eles eram retirados do corpo, mumificados separadamente e depositados em recipientes chamados atualmente de vasos canópicos, exceto o cérebro e o coração: o primeiro era jogado fora e o segundo mumificado também, mas posto de volta no corpo (BIERBRIER, 2008).

Imagem 1: Desenho de vaso canópico. Fonte: Revista Segredo das Múmias.

Não foi encontrado durante as pesquisas bibliográficas qual seria o fim dado para o útero ou outros órgãos. Há quem sugira que poderiam ser considerados como “intestinos” e postos no recipiente Kebehsenuef, mas isso carece de confirmação.

Usualmente podemos reconhecer esses objetos graças ao seu formato peculiar que traz as cabeças dos chamados “4 filhos de Hórus” (Imagem 2), cuja mitologia não nos é clara. Quando depositados na tumba eles eram protegidos também por mais quatro divindades, femininas todavia, e obedeciam aos pontos cardeais (BIERBRIER, 2008). Confiram o quadro a seguir:

Vasos Canópicos

Deusas protetoras Pontos Cardeais Vísceras Iconografia Filhos de Hórus
Neit Leste Estômago Chacal Duamutef
Néftis Norte Pulmões Babúino Hapi
Ísis Sul Fígado Homem Imseti
Selket Oeste Intestinos Falcão Kebehsenuef

Imagem 2: Vasos canópicos com o tema dos “4 Filhos de Hórus”, pertencente a um sacerdote de Amon, Padiuf (Terceiro Período Intermediário; XXII Dinastia). Fonte: Revista Egiptomania.

Imagem 3: Vasos canópicos datados da Baixa Época (MARIE; HAGEN, 1999, p. 154).

Voltando aos “4 filhos de Hórus”, apesar da imagem dos vasos canópicos serem tão reconhecíveis graças a esses deuses a verdade é que estes artefatos podem ser encontrados em outras formas: durante o Antigo Reino eles eram potes simples (Imagem 4) e especialmente durante o Novo Império podemos encontrá-los enfeitados somente com cabeças humanas (BIERBRIER, 2008; JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 3: Vaso canópico do Antigo Reino. Foto: M. Frouz (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 5: Exemplo de vaso canópico do Novo Império com cabeça humana. Este pertence a rainha Kiya. Fonte: Revista Egiptomania.

Acerca da sua confecção, os tipos de matérias-primas utilizadas para fazer este artefato não variavam muito, sendo usualmente feitos de rochas derivadas do calcário e em alguns casos é possível encontrá-los feitos com alabastro, que era mais nobre (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Curiosidades:

O nome “canópico” não é egípcio, ele foi dado para estes vasilhames porque os antiquários do século XIX os associaram com um herói mitológico grego, Canopus, que de acordo com a lenda teria sido sepultado em uma urna com cabeça humana (BIERBRIER, 2008; DAVID, 2011). É um dos muitos casos em que a cultura clássica influenciou a interpretação histórica do Egito faraônico por parte dos olhos modernos.

 Em algumas situações foi visto que os órgãos não foram postos em vasos. Assim como o coração eles poderiam ser mumificados e devolvidos para o interior do falecido (BIERBRIER, 2008).

Referências bibliográficas:

BIERBRIER, Morris L. Historical dictionary of Ancient Egypt. Maryland: The Scarecrow Press, Inc, 2008.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

JIRÁSKOVÁ, L. Damage and repair of the Old Kingdom canopic jars: the case at Abusir. PES XV, 2015.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

(Vídeo) 8 curiosidades sobre as múmias egípcias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A busca pela vida eterna é um tema recorrente quando estudamos a religiosidade egípcia e um assunto indiscutivelmente é sempre citado: a mumificação.

Foto via.

Múmias egípcias são fascinantes, isto é inegável, é tanto que elas não se restringem aos debates acadêmicos, estando também na cultura pop através da literatura, filmes, games, HQs e festas à fantasia.

Saiba mais: — O Egito Antigo nos filmes de terror. 

Porém, apesar de serem uma das figuras mais reconhecíveis advindas da antiguidade egípcia, muitas pessoas do público não acadêmico não possuem a oportunidade de conhecer um pouco mais acerca destes artefatos — Sim! As múmias feitas com interferência humana são consideradas artefatos —.

Por isso, separei 8 curiosidades acerca delas e as apresentei em vídeo para o nosso canal lá no YouTube (clique aqui para se inscrever e fazer parte da nossa comunidade).

Youtube | Facebook | Instagram | Twitter

E caso tenha sugestões para vídeos não deixe de enviá-las para mim.