Antiga tumba egípcia é desmontada pelo governo e gera revolta: entenda!

Em maio deste ano anunciei aqui no Arqueologia Egípcia a descoberta de uma tumba ricamente pintada na cidade de Sohag (cerca de 390 quilômetros ao sul do Cairo). Datada do Período Ptolomaico, esta sepultura pertencia a um casal: a mulher era Ta-Shirit-Iziz e o homem Tutu [1].

Foto: Reuters.

É descoberta no Egito tumba ricamente colorida e repleta de múmias

As imagens parietais retratam os donos da tumba, assim como imagens de procissões fúnebres e a genealogia da família escrita em hieróglifos. O outro grande detalhe é a presença de várias múmias: duas são humanas — um menino com 12 ou 14 anos de idade e  uma mulher de 35 a 50 anos —. [1]

Zahi Hawass e Tutankhamon estarão no Brasil

Mas, a história desta descoberta não acabou por aí, já que este mês o Ministério das Antiguidades do Egito tomou uma decisão que para muitos foi polêmica: o governo resolveu retirar a câmara funerária do seu local original (Sohag,) e transferi-la para o Museu da Nova Capital Administrativa [2].   

Através de um comunicado para imprensa o Ministro disse que esta mudança foi aprovada pelo comitê permanente das Antiguidades Egípcias Antigas. Ele igualmente salientou que as paredes da câmara funerária já foram cortadas [2].

Foto: Reuters.

Ainda de acordo com ele a decisão foi tomada porque o local original da tumba é muito remoto, isolado e suscetível a furtos [1]. Vale lembrar que esta tumba estava sendo saqueada em 2018 e o crime felizmente foi descoberto antes que mais estragos fossem realizados [3].

Mas nem todos concordam que esta foi uma boa decisão, a exemplo da arqueóloga Monica Hanna, que apontou que a tumba não está longe de uma área povoada de Sohag. “A realocação desta tumba é uma clara violação à Carta de Veneza para a restauração de lugares históricos; e o que o ministério está fazendo é destruir essa antiguidade, em vez de salvá-la ”, disse a arqueóloga ao portal ao Daily News. De acordo com a citada carta, “um monumento é inseparável da história a que testemunha e do cenário em que ocorre. A movimentação de todo ou parte de um monumento não pode ser permitida, exceto quando a salvaguarda desse monumento o exigir ou onde for justificado pelo interesse nacional ou internacional de importância primordial”.

Moustafa Waziri, secretário geral do Supremo Conselho de Antiguidades, declarou que no museu no qual a tumba será transferida ela irá atrair uma quantidade maior de turistas do que em sua localização atual. 

Ficarei no aguardo por mais informações. 

   

Fontes: 

[1] Mummified Mice and Falcons Are Found in Egyptian Tomb. Disponível em < https://www.nytimes.com/2019/04/06/world/middleeast/mummified-mice-egypt.html >. Acesso em 07 de  abril de 2019. 

[2]  Relocation of Ptolemaic burial chamber from Sohag to New Administrative Capital faces heavy criticism. Disponível em < https://dailynewsegypt.com/2019/08/07/relocation-of-ptolemaic-burial-chamber-from-sohag-to-new-administrative-capital-faces-heavy-criticism/?fbclid=IwAR1jj1S0RzAo8aj7I4_jBJSlGmMU_gEwnsG-sBvI2jlY_N-Tkkd-W9RLF48 >. Acesso em 12 de agosto de 2019. 

[3] Mummified mice found in ‘beautiful, colourful’ Egyptian tomb. Disponível em < https://www.theguardian.com/world/2019/apr/06/mummified-mice-found-in-beautiful-colourful-egyptian-tomb >. Acesso em 04 de maio de 2019.

As 9 melhores descobertas arqueológicas de 2017 sobre o Egito Antigo

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Caso você tenha caído de paraquedas aqui neste post ou simplesmente não tem o habito de ler sites ou blogs: o Arqueologia Egípcia é um site dedicado a trazer textos, vídeos, fotos e notícias sobre as pesquisas relacionadas com o Egito Antigo. Aqui até existe uma aba especial dedicada às novidades. É lá onde se encontram as notícias sobre descobertas arqueológicas associadas com a história egípcia e foi de onde tirei as 9 pesquisas que foram tidas como as mais interessantes, chamativas e legais de 2017.

Contudo, antes de dar início a lista, devo explicar que usei o termo “melhores” no título para resumir as mais magnificas do ponto de vista não só dos acadêmicos, mas do público. Sou da turminha da Arqueologia que considera toda e qualquer descoberta arqueológica passível de ser interessante para o entendimento do passado. Abaixo, as descobertas selecionadas:

 

1: Descoberta de imagens de embarcações:

Uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) foram contados nos desenhos 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões.

Foto: Josef Wegner

Neste caso não se sabe quem fez estas gravuras, mas ao menos duas teorias foram levantadas: a de que foram feitas pelos próprios trabalhadores que construíram o fosso ou que tenha sido a ação de vândalos. É né… Vai que.

 

2: Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada:

Esta provavelmente é uma das descobertas mais chocantes. Uma arqueóloga da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras em Saqqara: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

Através dos seus estudos, a arqueóloga foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem encontrada no cemitério tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos.

 

3: Fragmentos de uma estátua colossal:

Esta foi um hype! A historinha é a seguinte: Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. A princípio acreditou-se que se trataria de Ramsés II, da 19ª dinastia, Novo Império, mas não passou muito tempo até que descobrissem que na verdade era Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época.

Foto: Reuters.

4: Descoberta de tumba de princesa egípcia:

A tumba de uma princesa egípcia foi identificada na pirâmide de Ameny Qemau (13ª Dinastia), na necrópole de Dashur. Nas escavações que revelaram a câmara funerária da princesa foram identificados um sarcófago mal preservado, bandagens e uma caixa de madeira contendo vasos canópicos. Inscrições na caixa indicam que os objetos pertenceram a ela, que por sua vez era uma das filhas do próprio Ameny Qemau.

Foto: MSA

Esta foi uma descoberta que não revelou para a imprensa tantos achados assim, somente informações básicas. Mas o público do site amou muito e compartilhou a notícia extensamente. Então ela está aqui marcando presença.

 

5: Descoberta de faraó pouco conhecido:

Na verdade, esta foi uma descoberta dupla em que a princípio tinha sido encontrada uma pirâmide datada do Segundo Período Intermediário, em Dashur e somente depois foi apontado que ela pertencia a um faraó praticamente desconhecido chamado Ameny Qemau.

Foto: Ministério das Antiguidades do Egito.

Porém, esta história não acaba por aqui: uma outra pirâmide pertencente a esse mesmo governante foi descoberta em 1957, também em Dashur.

 

6: Os mais antigos hieróglifos egípcios:

Uma expedição conjunta entre a Universidade de Yale e o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas, que está estudando a antiga cidade egípcia de El kab, descobriu inscrições hieroglíficas com cerca de 5200 anos. São as mais antigas conhecidas.

Foto: MSA.

Os arqueólogos também identificaram um painel de quatro sinais, criados por volta de 3250 aEC e escritos da direita para esquerda — é assim que usualmente os hieróglifos egípcios eram lidos — retratando imagens de animais tais como cabeças de touros em um pequeno poste, seguido por duas cegonhas com alguns íbis acima e entre eles.

 

7: Cabeça de faraó encontrada em Israel:

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor. Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada.

 

8: O maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino:

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia).

Foto: MSA

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

 

9: Descoberta da localização de um templo de Ramsés II

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir.

Foto: MSA

A missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

 

Deliberadamente deixei a descoberta do “espaço vazio” da Grande Pirâmide de fora pelos motivos citados no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”:

Agora é a vez de vocês! Qual é a sua descoberta arqueológica do ano de 2017 favorita?

Veja a Pedra de Rosetta e outros artefatos egípcios sem sair de casa

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Entre meados do século 19ª e início do 20ª os antigos ricos europeus se deleitavam com a possibilidade de conhecer a terra dos faraós e, quem sabe, levar algum artefato como lembrança para casa (algo definitivamente proibido hoje em dia). Entretanto, se visitar a um artefato famoso antes era um privilégio dos endinheirados, atualmente a acessibilidade tem sido o foco de museus em uma tentativa de mostrar um pouco das sociedades passadas para o maior número de pessoas possível. Desta forma, tem se investido muito em acervos digitais através de fotos e vídeos para que curiosos ou acadêmicos de regiões remotas possam ver detalhes de algumas peças. Outro recurso são as imagens em 3D, que estão cada vez mais populares e que por vezes possibilitam que detalhes do objeto possam ser observados. É o que o Museu Britânico tem feito.

'06 | london | rosetta stone lookin

Todos os anos milhares de turistas visitam a Pedra de Rosetta no Museu Britânico.

O turismo (incluindo aqui a visita a museus e a sítios arqueológicos) representa atualmente uma parte significativa da economia em muitos países. Porém, não são todos que possuem o privilégio de pagar por passagens e diárias em hotéis, por exemplo, mas, não é por isso que estes não podem apreciar as construções do passado.

Com um perfil no site Sketchfab o museu tem disponibilizado mais de 200 imagens em 3D que mostram artefatos de diferentes culturas, dentre elas a egípcia antiga. É possível interagir com o objeto fazendo uso de um smartphone ou computador; girá-lo, se aproximar e ver detalhes.

Rosetta Stone in British Museum

Claro que isto não tira a emoção de ver uma peça pessoalmente, mas já é um passo. Tiremos como exemplo a Pedra da Rosetta, a chave para a decifração dos hieróglifos egípcios: para quem não mora na Inglaterra, onde ela encontra-se na atualidade, não é possível visitá-la. Mas, com essa ferramenta o interessado pode vê-la de todos os lados e caso tenha alguma compreensão conhecimento de hieróglifos egípcios, demótico ou grego, poderá testar seus conhecimentos.

Outros artefatos:

Estátua colossal de faraó não pertence a Ramsés II, mas provavelmente a Psamético I

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Um grande assunto no meio da Egiptologia nas últimas semanas foi a descoberta de fragmentos de uma estátua colossal em uma periferia do Cairo, onde outrora foi a cidade de Iunu, denominada entre os gregos como Heliópolis. Amplamente conhecida pela devoção ao deus Sol Rá, Iunu possuía um dos mais importantes centros de culto do Egito, mas que foi destruído gradativamente após o fim da era dos faraós.

Foto: Nevine Al-Aref.

O torso e a cabeça. Foto: Reuters.

A estátua, antes referida como pertencente ao Período Ramséssida (Novo Império; 19ª Dinastia), após sua remoção da trincheira feita pelos pesquisadores revelou o nome do seu verdadeiro dono: ali não é o famoso Ramsés II, mas aparentemente Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época. Esta crença baseia-se no fato de que um dos seus cinco nomes foi encontrado na imagem.

Parte da cabeça. Foto: Luxor Times.

A notícia foi dada pelo Ministro das Antiguidades, Khaled El-Enany, que pontuou que caso ela seja mesmo de Psamético I será a maior estátua do Período Tardio descoberta até então [1].

A estátua colossal:

De acordo com o arqueólogo responsável pelas pesquisas na área, Dietrich Raue, essa imagem, feita de quartzito, um dia possuiu cerca de 9 metros de altura [1]. Atualmente só foram encontrados dois grandes fragmentos seus — parte de trás da cabeça e o torso —, e ambos estavam no lençol freático. A cabeça, cuja remoção tornou-se uma grande polêmica e o torso foram transportados para o Museu Egípcio do Cairo e futuramente farão parte do acervo do Grande Museu Egípcio.

Ilustração: @marciasandrine

Representações de faraós e rainhas de tal tamanho tinha a intenção de demostrar o poder real e a divindade dos soberanos. Iconografias nos dão a ideia de como algumas dessas grandes imagens eram feias: com o auxílio de brocas e cinzeis elas eram esculpidas pelos chamados seankn, “aqueles que davam a vida” (BRANCAGLION Jr., 2001). Para otimizar o trabalho elas poderiam ser transportadas semi-prontas e depositadas no templo, onde eram finalizadas (BAINES; MALEK, 2008); para isso andaimes de madeira eram utilizados e uma equipe fazia os retoques e a pintura.

Reconstituição das atividades dos escultores.

A tradição da construção de estátuas colossais teve o seu auge no Novo Império e seguiu até o final do Período Faraônico. O tipo de material variava: o comum era o calcário, mas poderia ser de quartzito (como no caso da deste post), granito ou alabastro.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fonte:

[1] Newly discovered Matariya colossus is probably of King Psammetich: Ministry. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/261102/Heritage/Ancient-Egypt/Newly-discovered-Matariya-colossus-is-probably-of-.aspx >. Acesso em 17 de março de 2017.

Egypt Pharaoh statue ‘not Ramses II but different ruler. Disponível em < http://www.bbc.com/news/world-middle-east-39298218 >. Acesso em 17 de março de 2017.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito(Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

 

 

Veja estátua colossal de faraó ser erguida em vídeo de 360°

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Dica de Natália Barcelos, via Facebook.

Uma das coisas mais legais da tecnologia aplicada a divulgação de projetos em sítios arqueológicos é que é possível tornar o conteúdo mais interativo e consequentemente mais atrativo para o público.

Recentemente a descoberta de partes de uma estátua colossal, que provavelmente representa o faraó Ramsés II, deixou a internet em fervorosa, seja por admiração ou por susto acerca de como os artefatos foram tratados (clique aqui e aqui para saber mais acerca).

Foto: Guardian Wires

O ponto é que o assunto chamou tanta atenção que o famoso jornal The New York Times divulgou para seus leitores um vídeo em 360° registrando justamente o momento em que o torso da estátua é erguido. Para conferir clique no play e com o mouse movimente a tela para ver ao redor:

Estátuas egípcias: Símbolos de poder e da eternidade:

Antes de simples representações, a estatuária egípcia era carregada de importantes significados. Um deles, relacionado exclusivamente com o faraó e os principais membros da sua família, era o de representar a essência divina. As estátuas também eram tidas como um ótimo receptáculo para o Ka. Não é à toa que os escultores eram conhecidos como “aqueles que davam a vida” (seankh) (BRANCAGLION Jr., 2001).

A escultura egípcia comumente estava inserida em um contexto religioso (ou funerário). Elas eram feitas com brocas e cinzeis e quando colossais, como é o caso da citada nesse post, seu transporte transformava-se em um problema de engenharia. Por isso, alguns arqueólogos acreditam que elas eram levadas semi-prontas para o espaço em que seriam depositadas e lá eram finalizadas (BAINES; MALEK, 2008).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes bibliográficas:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

Novidades sobre o colosso Ramséssida encontrado na antiga Heliópolis

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Há alguns dias comentei aqui no AE sobre a descoberta de grandes estátuas do Período Ramsésssida em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis e as polêmicas que surgiram a seguir. Uma delas era acerca da possibilidade de a equipe ter quebrado a cabeça da estátua maior, o que foi negado veementemente por vários profissionais. A questão é que ela foi tirada de um poço com uma escavadeira, o que revoltou muitos egípcios, levantando críticas por todo o país.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Parte da cabeça da possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

O outro problema é que a mesma cabeça tinha sido deixada no sítio sem proteção e somente mais tarde recebeu uma fita de isolamento.

Cabeça já seca com crianças brincando sobre ela. Foto: Autor desconhecido.

Foto: Asmaa Gamal

Foto: Asmaa Gamal

Então, no último dia 13/05, em meio a vários olhares vigilantes, o torso dessa imagem, que provavelmente representa o faraó Ramsés II, foi retirado com cintos e cordas do buraco em que estava. Desta vez a metodologia agradou. Abaixo um vídeo do momento em que a imagem é erguida:

As três últimas fotos foram retiradas do perfil do user @ahmed__mohey.

Agora igualmente temos ciência de que os trabalhos de arqueologia não estão focando somente no resgate dessas estátuas, mas no de pequenos artefatos também, a exemplo de restos cerâmicos:

Foto: Asmaa Gamal

Foto: Asmaa Gamal

Foto: Asmaa Gamal

De acordo com o Ministério das Antiguidades, as peças encontradas farão parte do acervo do Grande Museu Egípcio, que de acordo com as suas previsões estará aberto em 2018.

Grandes estátuas de Ramsés II e Seti II são encontradas na “Cidade do Sol”: mas, existem alguns probleminhas…

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. As pesquisas estão sendo coordenadas pela Universidade de Leipzig em cooperação com o Ministério das Antiguidades do Egito [1].

Ambas, no momento da descoberta, estavam cobertas com lama argilosa. Partes delas já foram removidas do local e de acordo com o Ministro das Antiguidades, serão levadas para o Grande Museu Egípcio, cuja inauguração — cancelada várias vezes  — espera-se que ocorra em 2018 [1].

Uma delas, feita em pedra calcária, é a parte superior de uma imagem do rei Seti II (identificado por um cartucho em seu ombro direito) e mede cerca de 80 cm de altura.

Estátua de Seti II. Foto: Luxor Times.

Estátua de Seti II. Foto: Luxor Times.

A segunda é feita de quartzito. Não se sabe quem ela representa, embora a sugestão é de que possa ser Ramsés II — um ligeiro antecessor de Seti II —. Esta imagem deveria ter tido cerca de 8 metros de altura.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

“Estou bastante certo de que [os quadris e pernas] estarão lá”, disse Dietrich Raue, diretor da equipe alemã, “mas o problema é que estamos no meio da cidade e a parte inferior pode estar muito perto das residências. É perigoso escavar mais perto das casas, assim provavelmente nós não teremos a parte inferior” [3]

O templo foi destruído no Período Greco-romano e as antiguidades foram saqueadas e enviadas para Alexandria ou Europa. Em épocas posteriores alguns elementos dos edifícios foram reciclados como material de construção no Cairo[3].

Controvérsias:

Em meio a várias notícias comemorando a descoberta, algumas fotos têm circulado por algumas mídias sociais criado uma grande polêmica no Egito. A questão tem relação com a utilização de uma escavadeira para extrair as estátuas da terra, o que levou a acusações de que essa metodologia teria prejudicado a integridade dos objetos e que, inclusive, teria quebrado um deles.

Em um comunicado, o Ministério das Antiguidades comentou o escândalo, garantindo que os artefatos não sofreram avarias e que estão recebendo acompanhamento de especialistas. Mahmoud Afify, chefe do Setor de Antiguidades Egípcias, disse que apenas parte da estátua, a cabeça, foi levantada com uma escavadeira devido ao seu peso excessivo, o restante permanece no local. Ainda de acordo com o mesmo, para retirá-la foram utilizados tarugos de madeira e cortiça para separá-la do metal do guindaste. Uma grande quantidade de argila também foi retirada com a peça durante o levantamento [2][3].

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Zahi Hawass, ex-ministro as antiguidades, defendeu a metodologia adotada por seus colegas afirmando que “Se não for transportada deste modo, então ela nunca será transportada. Este é o método usado em todos os países do mundo para mover quaisquer artefatos arqueológicos desse tamanho (…). Portanto, garanto que o que foi feito pela missão foi um trabalho científico integrado em salvar a escultura descoberta e que não há outra maneira para a missão a não ser usar essas máquinas que preservaram a estátua” e complementou “Estou muito feliz com o transporte desta imagem e sua descoberta, porque tem gerado grande publicidade no mundo inteiro” [4].

Outros pontos foram levantados pela arqueóloga e ativista Monica Hanna em sua página em uma rede social. Ela explicou que o verdadeiro problema é que essas grandes estátuas foram encontradas em um terreno cedido pelos Ministério das Antiguidades. Em um outro momento o até então chefe de arqueologia da região afirmou, erroneamente, que o espaço não tinha nenhum interesse histórico e o deu para a Unidade Local para construir um mercado. Ela ainda salientou a questão do esgoto no sítio e falou sobre a possibilidade de drenar toda a água. Também comentou sobre como grandes artefatos são erguidos: “(…) objetos pesados são geralmente levantados usando cintos/cordas ou são acolchoados para evitar o contato com as partes metálicas da escavadeira, pois existe sempre risco de choque, mesmo que mínimo, durante a difícil operação. Das imagens, parece que a estátua não foi quebrada durante a operação, como algumas pessoas temiam”. [5]

Esgoto e lixo: péssima mistura não só em um sítio arqueológico, mas em uma área residencial. Foto: Luxor Times.

Contudo, de fato algumas fotografias compartilhadas por alguns egípcios realmente são preocupantes. Aparentemente a cabeça da estátua ainda está no local em que a equipe a deixou após retirá-la do buraco. Exceto a primeira, as duas outras fotografias, até o momento, são de autores desconhecidos:

Alguns jornais e portais noticiaram que as estátuas seriam enviadas para o Grande Museu Egípcio, mas não falaram que a suposta cabeça de Ramsés II ainda permanecia no local. Foto: Mohamed Abd El Ghany / Reuter.

Esta foto de crianças brincando sobre a cabeça é preocupante, principalmente porque uma delas (círculo vermelho) está apoiada na orelha da estátua. Foto: Autor desconhecido.

Homens da própria região parecem ter tomado uma iniciativa e coberto a cabeça para protegê-la. Foto: Autor desconhecido.

Up-date: 15h09 | 11/03/2017

Saiu na mídia egípcia que agora a cabeça está “protegida” com fitas amarelas de proteção. Já é alguma coisa:

Foto: Past Preservers

Área alagada: qual seria a melhor maneira de trabalhar nessa situação?

A priori pode parecer impossível realizar um trabalho de arqueologia em um sítio alagado, mas não é. Nessa situação, por exemplo, foi possível realizar um trabalho de dragagem. Porém, nenhumas das notícias deixam claro se ocorreu alguma preocupação em se procurar por pequenos artefatos, só nos é possível ver os trabalhadores lavando as partes das estátuas e depois as removendo com uma escavadeira.

Foto: Mohamed Abd El Ghany / Reuter

Talvez com a publicação oficial da missão isso seja, ou já tenham sido, respondido. Porém, aproveitei para entrar em contato com um colega brasileiro, o Luis Felipe Freire, que é especialista em Arqueologia Subaquática. Perguntei para ele como nesta situação, a de um sítio arqueológico coberto por lama, poderíamos procurar por pequenos artefatos, já que não é possível realizar uma escavação por camadas. Sua resposta foi a seguinte:

“Vai depender da área, o ideal seria estar drenando a água para começar a retirar o sedimento, peneirando o mesmo com a técnica de peneira molhada. No entanto, vai depender das condições do local, porque se for à beira de um rio/lago/mar a água poderá continuar minando com muita velocidade. Geralmente o pessoal faz isso. Drenagem da água e escavação a níveis artificiais para ter o mínimo de controle estratigráfico”.

Falei para ele que ocorreu uma tentativa de drenagem, mas que por algum motivo ainda tinha muita água. Então ele pontuou:

“Realmente, daria para fazer algo com um maior controle e registro arqueológico. Porque mesmo com muita água minando, ainda dá para criar um sistema de drenagem que controle o surgimento da água, enquanto é feita a escavação. Tanto que o pessoal já fez escavação no meio do mar drenando a água e escavando os sítios na lama. Só que é uma logística cara, possivelmente eles não queriam ter muito esforço (gastar dinheiro)”.

Outras descobertas importantes:

Heliópolis, conhecida como Iunu em egípcio antigo (On em copta e na Bíblia), foi um importante nomo do Egito. Atualmente parte dessa antiga cidade compreende o subúrbio do Cairo. O nome “Heliopolis” (Cidade do Sol, traduzido do grego) tem relação com os templos do deus Sol Rá, Amon-Rá ou Rá-Harakhty. Aton, uma das representações de Rá, também foi cultuado no local.

Em Souq Al-Khamis foram encontrados os restos dos templos dos faraós Tutmés III, Akhenaton e o próprio Ramsés II, todos do Novo Império.

— Abaixo vocês poderão conferir alguns vídeos e entrevistas realizados no local em que foram encontradas as estátuas (legendas em inglês):

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

[1] Ramesses II colossus discovered in old Heliopolis. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/03/ramesses-ii-colossus-discovered-in-old.html >. Acesso em 09 de fevereiro.

Egipto recupera del fango dos grandes estatuas de la época ramésida. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-egipto-recupera-fango-grandes-estatuas-epoca-ramesida-201703091530_noticia.html >. Acesso em 09 de fevereiro.

[2] Officials deny any damage to newly-discovered king Ramses II statue during excavation. Disponível em < http://www.egyptindependent.com/news/officials-deny-any-damage-newly-discovered-king-ramses-ii-statue-during-excavation >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[3] Colossal 3,000-year-old statue unearthed from Cairo pit. Disponível em < http://edition.cnn.com/2017/03/10/africa/ramses-ii-ozymandias-statue-cairo/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[4] Zahi Hawass fires back at criticism of colossus’ salvation. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/03/zahi-hawass-fires-back-at-criticism-of.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[5] Comentários da Monica Hanna. Disponível em < https://www.facebook.com/monicahanna/posts/960545308686 >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Massive Statue of Ancient Egyptian Pharaoh Found in City Slum. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2017/03/egypt-pharaoh-ramses-statue-discovered-cairo/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Estátua de Ramsés II encontrada no Cairo é uma das descobertas arqueológicas mais importantes da história. Disponível em < http://www.hypeness.com.br/2017/03/estatua-de-ramses-ii-recem-achada-em-uma-favela-do-cairo-e-uma-das-descobertas-arqueologicas-mais-importantes-da-historia/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Polícia egípcia recupera três múmias roubadas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

A Polícia Turística e de Antiguidades recuperou uma coleção de 11 artefatos faraônicos furtados de um sítio arqueológico em Fayum. Os itens estavam em posse de uma gangue especialista neste tipo de crime.

A crença de que estes objetos saíram diretamente de um sítio arqueológico está no fato de as peças não estão registradas nos documentos do Supremo Conselho de Antiguidades, ou seja, saíram de alguma escavação clandestina.

Coleção recuperada pela Polícia Turística e de Antiguidades. 2014.

Em meio à coleção apreendida estão três múmias datadas do Período Greco-Romano: duas mulheres e um homem, todos adultos.

Os demais artefatos compreendem rostos de sarcófagos arrancados do seu lugar original.

Os saques a sítios arqueológicos têm sido um problema endêmico no Egito desde a chegada dos europeus no país e a popularização dos antiquários e dos gabinetes de curiosidade. A prática atualmente é considerada crime, mas o comércio destes tipos de itens movimentam milhões no mercado negro.

Fonte:

Egyptian police confiscate three mummies from smuggling gang. Disponívem em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/98836/Heritage/Ancient-Egypt/Egyptian-police-confiscate-three-mummies-from-smug.aspx >. Acesso em 13 de abril de 2014.

Empresa espanhola se encarregará de melhorar a segurança nos sítios arqueológicos do Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ontem, 29 de maio (2013), o Ministério Egípcio de Antiguidades anunciou o aceite de um projeto da empresa espanhola Defex, que se comprometeu em instalar em sítios arqueológicos, tais como o platô de Gizé, Luxor e o Vale dos Reis, um sistema de iluminação e segurança.

A empresa se encarregará de instalar câmeras nos sítios para gravar as visitas durante 24 horas, fechará o perímetro das pirâmides de Gizé e estabelecerá controles de umidade no Vale dos Reis.

Este projeto foi pensado de uma forma que a iluminação não prejudique a integridade do artefato e terá início esta semana.

Os trabalhos contarão com um empréstimo de 30 milhões de euros da Espanha.

 

Fonte:

Lanzan proyecto hispano-egipcio para iluminar y vigilar los templos de Luxor. Disponível em <  http://noticias.lainformacion.com/arte-cultura-y-espectaculos/arqueologia/lanzan-proyecto-hispano-egipcio-para-iluminar-y-vigilar-los-templos-de-luxor_B7q3FLaKG8PKLRqllphtB3/ >. Acesso em 29 de maio de 2013.

O grafite feito pelo turista chinês foi removido de Luxor

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O Departamento de Antiguidades do Egito anunciou esta terça-feira que o grafite deixado pelo turista chinês Ding Jinhao já foi retirado da imagem do templo de Luxor. De acordo com o arqueólogo responsável pela área, Mansour Boreik, as marcas deixadas pelo garoto foram feitas de forma superficial.

 

Imagem do templo de Luxor sem o grafite. Imagem disponível em < http://www.rawstory.com/rs/2013/05/28/chinese-graffiti-removed-from-egyptian-relic/ >. Acesso em 29 de maio de 2013.

 

O problema de atos de vandalismos realizados tanto por turistas como pelos próprios egípcios é comum nos sítios arqueológicos do país. Para saber de mais acerca de alguns exemplos clique aqui (Vandalismo em sítios arqueológicos no Egito: Ding Jinhao não é o único caso), matéria com update.

 

Situação anterior da imagem. No grafite estão as palavras em mandarim “Ding Jinhao esteve aqui”. Foto: Kong You Wu Yi. Imagem Disponível em < http://egyptianstreets.com/2013/05/26/chinese-tourist-damages-3000-year-old-temple-in-luxor/ >. Acesso em 27 de maio de 2013.

 

Fonte: Chinese graffiti removed from Egyptian relic. Disponível em < http://www.rawstory.com/rs/2013/05/28/chinese-graffiti-removed-from-egyptian-relic/ >. Acesso em 29 de maio de 2013.