Antigos feitiços egípcios prometiam trazer a pessoa amada

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A recente decifração de um papiro descoberto há cerca de 100 anos pelos arqueólogos Bernard Grenfell e Arthur Hunt em Oxirrinco, próximo a Fayum, mostrou um lado mais obsessivo dos egípcios antigos. Sua tradução foi realizada por um pesquisador da Universidade de Udine (Ítália), Franco Maltomini. O que ele leu foram alguns detalhes do desejo possessivo de algumas pessoas do Período Faraônico em forçar nascer o amor em terceiros ou a submissão através de magia. Em um dos textos o leitor é ensinado a “queimar o coração” da mulher desejada até que ela o ame. Também é explicado como realizar um feitiço para “subjugar” algum homem em especifico, para que ele realize tudo o que lhe for mandado.

Imagem meramente ilustrativa. Nebamun e sua esposa. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/menesje/sets/72157622616113777/ > Acesso em 14 de maio de 2011.

De acordo com Maltomini, estes feitiços eram formulas para invocar os deuses e interceder pela pessoa. Bastava somente que ela inserisse em meio ao feitiço o nome do indivíduo desejado. Esta magia é datada do período romano e está escrita em grego. Mas a surpresa maior é que os deuses invocados são gnósticos, ou seja, incorporavam elementos cristãos. O cristianismo estava em acessão no Egito neste período e tinha frequente choques com a religião oficial, que ainda cultuava os antigos deuses, alguns deles helenizados, como era o caso de Serápis.

Papiro que prometia fazer uma pessoa se apaixonar ou ser subjugada. Foto: © the Imaging Papyri Project, University of Oxford & Egypt Exploration Society.

No texto voltado para enfeitiçar uma mulher pode-se ler mais ou menos o seguinte:

Eu vos conjuro, terra e água, pelo demônio [1] que habita em você. E conjuro o destino deste banho para que, enquanto se queima, queime ela [aqui era posto o nome da mulher visada] que [aqui era escrito o nome da mãe da moça] pariu, até que ela venha a mim (…) Nomes sagrados, inflamem o caminho e queimem o coração dela.

Depois bastava que fosse realizada uma série de oferendas em uma casa de banho e se registrasse o feitiço nas paredes do local.

— Leia também: Um afrodisíaco no Antigo Egito

Magias no Egito Antigo:

Fórmulas mágicas não eram incomuns na Antiguidade egípcia. Acreditava-se, por exemplo, que se algo fosse escrito em um contexto religioso a ação citada magicamente iria acontecer ou entrava como uma narrativa do passado. Este era um caminho utilizado por muitos faraós, em especial aqueles que estivessem prestes a ir ou já tivessem participado de alguma grande batalha.

Conjurações e amuletos também eram utilizados para fazer mal a um inimigo. Um dos exemplos conhecidos é advindo do reinado do rei Senusert III, onde os chamados “textos para amaldiçoar” foram utilizados. Eles eram escritos em pedaços de cerâmicas que depois eram quebradas.

Fontes:

Ancient ‘Mad Libs’ Papyri Contain Evil Spells of Sex and Subjugation. Disponível em < http://www.livescience.com/54819-ancient-egyptian-magic-spells-deciphered.html >. Acesso em 08 de junho de 2016.

Para poder ler esta pesquisa:

Graeco-Roman Memoirs 103 (P. Oxy 82). Disponível em < http://www.ees-shop.com/index.php?main_page=product_info&cPath=5&products_id=956 >. Acesso em 08 de junho de 2016.


[1] No artigo do Live Science não é explicado o contexto do termo “demônio”. Quando vemos em uma tradução de um texto egípcio o uso de tal palavra pode ser uma referência a um dos dois tipos de “entidades errantes”: os “andarilhos” ou “guardiões”. Se for o caso dessa formula, talvez o papiro esteja falando dos “guardiões”, que seriam os poderiam protetores de um determinado lugar.

Udapte (09/06/2016 – 17h11) – Enviado pelo usuário @marcus_valias via Twitter:

Imagens de beijos na Antiguidade egípcia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

São numerosas as imagens parietais encontradas em sítios arqueológicos no Egito, a maioria delas fragmentadas, mas que, todavia, ainda são capazes de passar informações acerca do passado, não somente sobre linhas artísticas ou tecnologia, mas também sobre aspectos culturais.

Estamos habituados a ver em galerias de museus ou almanaques retratos de faraós, rainhas, sacerdotes ou escribas; muitas são efígies formais e na maioria das vezes idealizadas (BRANCAGLION Jr., 2001). Contudo, é possível encontrar exemplos mais “humanos”, de valor sentimental e até sexual, como é o caso das cenas de beijos nos lábios

É fato que não se sabe qual sociedade “inventou” tal beijo. É possível encontrar algumas teorias na internet, revistas e livros. Contudo, definir quem beijou primeiro provavelmente não será uma pergunta que terá resposta já que é algo que a Arqueologia não pode alcançar; Algumas sociedades retratam o ato, mas e aquelas pertencentes à Pré-História? Rememoremos que os registros rupestres não documentaram tudo o que fosse relacionado ao cotidiano.

Um erro comum é deduzir o passado como se estivesse olhando o presente. Então, não se pode interpretar o ato de beijar da mesma forma nas diferentes culturas e menos ainda em diferentes tempos. Quando nos deparamos com o Período Faraônico identificamos que o beijo era uma expressão sexual, contudo, igualmente demostrava a devoção familiar ou tinha a intenção de passar uma benção divina  (O’CONNOR, David et al., 2007).

Estas representações são encontradas em diferentes contextos. No templo mortuário de Ramsés III em Medinet Habu, por exemplo, o faraó é representado beijando sua noiva (TIRADRITTI, 1998). Mas nos talatats e estátuas de Amarna podemos visualizar muito mais, graças a predileção do faraó Akhenaton de retratar muitas imagens “informais”.  A escultura a seguir (Imagem 1) mostra o rei (sabemos que é ele graças a “Coroa Azul”, exclusiva dos faraós) beijando uma figura feminina. Apesar das especulações de que se trataria de Nefertiti, uma outra esposa chamada Kiya, ou uma de suas filhas (TIRADRITTI, 1998), a verdade é que não se conhece a real identidade desta pessoa:

Imagem 1: Akhenaton e uma figura feminina desconhecida (STROUHAL, 2007, p. 20).

Na próxima (Imagem 2) podemos observá-lo mais uma vez (a esquerda) aparentemente prestes a beijar a sua filha mais velha, Meritaton, que está em seus braços. Deve-se incluir aqui o “aparentemente” porque na cultura egípcia faraônica existia também uma ação de afagar os narizes para demonstrar carinho.

Imagem 2: Akhenaton aproxima-se de Meritaton para um provável beijo (MARIE; HAGEN, 1999, p. 47).

Na “Imagem 3” quem realiza o ato são duas figuras femininas que sugere-se que sejam a rainha Nefertiti com a sua filha Meritaton (O’CONNOR, David et al., 2007,p. 91):

Imagem 3: figuras do Período Amarniano (O’CONNOR, David et al., 2007,p. 91).

E na “Imagem 4” temos um casal durante o coito onde eles se beijam.

Referências:

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Um afrodisíaco no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto é a minha tradução do artigo An Ancient Egyptian Aphrodisiac (Um afrodisíaco no Antigo Egito), de Diana Craig Patch, diretora do projeto Joint Expedition to Malqata (JEM). Apesar do título o texto deixa claro que a planta em questão pode até ser afrodisíaca, mas certamente alucinógena. Entretanto, não acreditem cegamente que o aparecimento desta planta ou fruto na iconografia significa que era usada para fins psicodélicos. Abaixo a tradução:

Um afrodisíaco no Antigo Egito

Os pequenos e frágeis ornamentos de faiança que foram coletados durante as escavações em Malqata durante os primeiros anos do The Met (The Metropolitan Museum), sempre foram os meus favoritos. Estas imagens coloridas de elementos florais são provavelmente usadas para decorar diferentes coisas, inclusive colares largos. Nesta temporada uma das imagens que tem aparecido em vários artefatos é o fruto da mandrágora (Mandragora sp.).

Um pingente de faiança representando uma mandrágora do Palácio do rei Amenhotep III em Malqata – Rogers Fund, 1911.

Detalhe do rosto de Tutankhamon no seu santuário de ouro com elementos de mandrágoras claramente vivíveis em seu colar.

A mandrágora é uma pequena planta cujas folhas surgem em uma roseta basal no chão. Encontrada tradicionalmente no norte e leste do Mediterrâneo, ela aparece no Egito durante o Novo Império, crescendo em jardins de membros da elite da sociedade egípcia.

Jardim de Ipuy com a planta de mandrágoras crescendo ao longo do canal (ao lado do chachorro, bem a direita), Rogers Fund, 1930 (30.4.115).

Uma planta herbácea perene, ela é melhor conhecida por sua longa e espessa raiz ramificada que em muitas culturas folclóricas ganharam características humanas. As flores são de um branco esverdeado, azul pálido, ou mesmo violeta e suas pequenas frutas, uma baga, é de um profundo amarelo para laranja com um cálice verde escuro. As frutas foram traduzidas em imagens egípcias como frutas amarelo brilhante cujo cálice em pinturas está em verde e nas faianças em um profundo azul.

Esquerda: Planta de mandrágora; Direita: Fruta da mandrágora.

Um ladrilho ilustrando uma planta de mandrágora no jardim, Purchase, Edward S. Harkness Gift, 1926 (26.7.942).

As folhas e raízes contêm alcaloides tropanos delirantes e alucinógenos, tornando a planta potencialmente venenosa. Dependendo da quantidade ingerida – que varia de planta para planta -, as partes usadas e técnica de preparação. Emético (suscetível a causar vômitos), purgativo (que leva a evacuação das fezes do organismo) e efeitos de narcóticos são susceptíveis; uma mandrágora pode causar uma overdose tóxica. Baseado nos registros advindos da antiguidade, parece que a planta foi usada para fins medicinais. A literatura grega sugere possíveis aplicações para o tratamento da gota, feridas e insônia; para os sumérios, era um remédio para dor.

A mandrágora, no entanto, transforma-se em uma popular imagem na arte egípcia porque a planta e seus frutos são associados com os conceitos de amor e desejo, possivelmente a ser conseguido ou auxiliado por uma poção feita a partir da planta. Como sugerido por Kate Bosse-Griffiths [1], a mandrágora, tem conotações para a potência masculina e o fortalecimento do poder sexual, especialmente em meados do final da XVIII Dinastia.

Uma jovem mulher em um banquete registrado na tumba de Nebamun passando uma fruta de mandrágora.

Nos poemas de amor e em contextos onde o rejuvenescimento é o tema, tal como na cidade festival de Amenhotep III, nós achamos muitas imagens e representações desta linda, mas tóxica, pequena fruta.

Esquerda: Um fragmento de um vaso azul pintado com uma porção de um fruto mandrágora; Direita: Fragmento de uma pintura de parede com as mandrágoras do Palácio do rei Amenhotep III.

Um molde de cerâmica de uma área industrial (N150, E180) em Malqata usado para fazer elementos de faiança em forma da fruta mandrágora.

26 de Janeiro de 2016

Leitura interessante:

[1] Kate Bosse-Griffiths, “The Fruit of the Mandrake in Egypt and Israel,” in Amarna Studies and Other Selected Papers (ed. by J. Gwyn Griffiths), pp. 82-96, Orbis Biblicus et Orientalis 182 (Fribourg, Switzerland and Göttingen, 2001).

Texto original:

Diana Craig Patch. Disponível em < https://imalqata.wordpress.com/2016/01/25/an-ancient-egyptian-aphrodisiac/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

O namoro no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O amor é um sentimento de carinho e afeto amplamente difundido na nossa cultura atual, sendo homenageado todos os anos, em diferentes países, e usado como uma ferramenta de consumo capitalista. Arqueologicamente falando, no Egito temos vários exemplos deste tipo de sentimento sendo demonstrado em palavras ou imagens parietais tumulares ou em artefatos domésticos. Para este último caso temos como exemplos alguns artefatos provenientes da KV-62, tumba do faraó Tutankhamon, que viveu no Novo Império, durante a 18ª Dinastia.

Tutankhamon morreu com cerca de 18 e 19 anos e foi sepultado no Vale dos Reis. Seu túmulo foi encontrado praticamente intacto em 1922 pelo arqueólogo inglês Howard Carter, que catalogou vários objetos em que o jovem falecido aparecia ao lado da sua única esposa, Ankhesenamon. As imagens refletem um carinho mutuo; em alguns momentos vemos o faraó caçando na companhia da sua esposa que hora está observando a caça ser abatida, hora indica o alvo para o marido. Ela lhe oferece flores e em outra situação ele derrama um líquido em uma das mãos dela enquanto Ankhesenamon descansa um braço em seu colo.

Tutankhamon e Ankhesenamon (STROUHAL, 2007, p.80).

Estas demonstrações de afeto entre membros da realeza não eram comuns, em verdade exemplos deste tipo ficaram populares durante o Período Amarniano, que compreende o reinado do faraó Akhenaton até o reinado de Tutankhamon (alguns acadêmicos sugerem o reinado de Ay). Nos demais períodos temos demonstrações mais formais, onde o casal é apresentando realizando trabalhos ou precedendo um ao outro em iconografias funerárias, contudo a cultura material escrita nos traz alguns poemas românticos (BUNSON, 2002), especialmente durante o Novo Império, como o exemplo a seguir:

O amor dos meus desejos

Está na outra margem.

Estamos separados por águas tumultuosas

Um crocodilo nos ameaça

Nas águas pouco profundas.

Deslizo no rio e caminho para atravessá-lo.

Não temo a profundidade

Nem temo os crocodilos.

O rio é para mim como terra seca.

O amor me dá forças,

O amor é meu amuleto.

Vejo meu coração ansioso,

Ela está diante de mim (STROUHAL, 2007, p. 39-40).

Casal que viveu durante a 18ª dinastia (STROUHAL, 2007, p.162).

Casal que viveu na 4ª ou 5ª dinastia (STROUHAL, 2007, p.246).

Era comum chamar a pessoa amada de “irmã” ou “irmão”, o que não significava necessariamente um parentesco, mas uma forma de mostrar carinho e proximidade com a pessoa querida [1] (WILFONG, 2010). Outra forma de evidenciar carinho afetivo e/ou proximidade sexual era com troca de beijos nos lábios, como também a “troca de hálito”, que era a ação de esfregar um nariz no outro (STROUHAL, 2007). Já anatomicamente falando, como o coração era tido como o órgão responsável não só por guardar as boas e más ações, como também os sentimentos, os apaixonados em textos frequentemente pediam pelo o coração do companheiro para simbolizar uma ligação romântica intensa.

Ankhesenamon e Tutankhamon (George Rainbird/Robert Harding Picture Library em STUART, 1979, p. 89).

Para o amor romântico e sexual existia uma divindade patrocinadora, Hathor, também chamada de “Deusa de Ouro” e a quem o casal suplicava por uma vida a dois feliz. Ela era uma deusa bastante popular, com uma profunda associação com o Sol, padroeira do céu e do deserto. Sua importância era tamanha que tanto era evocada para proteger as pessoas contra os perigos escondidos na noite, como para proteger os indivíduos falecidos durante sua viagem pelo o além-vida (BUNSON, 2002; STROUHAL, 2007; GRALHA; 2012). As suplicas a ela revelam os anseios do amor e a necessidade de ficar com a pessoa que tanto deseja:

Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (…). Ó, Deusa de Ouro, põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão, eu o beijarei na frente dos que o cercam (…) (ARAÚJO, 2000, p. 307 apud BALTAZAE e COELHO, 2012, p. 168).

Sabemos também que não era incomum o sexo antes do casamento e isso fica nítido em alguns poemas amorosos, assim como os jogos de sedução e o flerte (STROUHAL, 2007), mas nem tudo era felicidade, a desilusão amorosa e o amor não correspondido também se manifesta na cultura material escrita:

Ele não sabe o desejo que tenho em tomá-lo nos braços, (…), Ó, meu irmão, queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres (ARAÚJO, 2000, p. 305 apud BALTAZAE e COELHO, 2012, p. 170).

Ou:

Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (…). Olhos na estrada, ouvidos atentos, espero por aquele que me despreza (BALTAZAE e COELHO, 2012, p. 171).

Observando esses exemplos o que podemos notar é que esses indivíduos que viveram durante o faraônico não se diferiam muito de nós, principalmente ao mostrar sua estima pelo (a) companheiro (a) publicamente; Rememoremos o faraó Ramsés II, que designava a esposa Nefertari como “Dama adorável”, “Bela de rosto” e “Doce amor” (O’CONNOR, 2007). Por fim, a experiencia que podemos resgatar deste passado tão remoto é que independente do período e do que era ou não aceitável amar [2] a busca pelo o amor poderia passar por percalços, dificuldades e inseguranças, como ocorreria com qualquer pessoa na atualidade.

Referências bibliográficas:

BUNSON, Margaret R. Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Facts On File, 2002.

GRALHA, Julio. Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito. In: CANDIDO, Maria Regina [org.]. Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

STUART, Gene. S. Secrets from the past. National Geographic Society, 1979.


[1] Isso valia também para pessoas que eram grandes amigas ou que se esperava que cultivassem uma boa amizade.

[2] Muitas vezes e isto vale para a atualidade, a escolha de com quem é permitido se relacionar passa por um julgamento da sociedade, ou seja, é cultural, ignorando os anseios reais do individuo.

(Vídeo) 5 livros sobre o Antigo Egito: temas específicos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Recente gravei um vídeo para o canal do Arqueologia Egípcia no Youtube apresentando 5 livros sobre o Antigo Egito que são voltados para temas específicos. São eles: Pirâmides, ouro, culinária, sexualidade e arquitetura.

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Abaixo a lista de livros:

☥ “As Pirâmides do Antigo Egito” de Aidan Dodson. O autor fez um catálogo de todas as pirâmides conhecidas na época em que este livro foi editado. Relata brevemente acerca do simbolismo destes edifícios e apresenta fotografias e descrições de muitas destas construções.

DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

☥ “O ouro dos faraós” de Hans Wolfgang Muller e Esberhard Thiem. É um dos meus favoritos porque fala “um pouquinho de tudo” desde o surgimento da ideia do ouro como algo místico, comércio, tipos de pedras preciosas e semipreciosas e algumas das descobertas realizadas no país, além de ter muitas fotos de vários tipos de artefatos diferentes, todos, claro, contendo ouro.

MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). Barcelona: Folio, 2006.

☥ “A culinária no Antigo Egito”, de Pierre Tallet. Nele o autor mostra que embora a dieta básica egípcia fosse composta de grãos existiu uma variedade de alimentos que poderiam ser consumidos. Era tanta criatividade na hora de cozinhar que existem indícios arqueológicos mostrando tortas arcaicas enfeitadas, alimentos que lembram nossos sanduíches e que os menos afortunados chegavam até mesmo a comer ratos.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.

☥ “Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito”, de Joseph Toledano e El-Qhamid, que como bem fala o nome apresenta o lado erótico do Antigo Egito. O início dele é bem interessante porque o autor fala sobre o pudor de antigos pesquisadores ao rasurar, rasgar ou quebrar partes de artefatos arqueológicos na tentativa de deixar tudo mais “apresentável”. Os autores realmente não tiveram interesse de mascarar como era visto o amor e principalmente o sexo na antiguidade.

TOLEDANO, Joseph; EL-QHAMID. Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito (Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona, Folio, 2007.

☥ “Egipto:  do Pré-dinástico aos Romanos” de Dietrich Wildung. Este é também um dos que mais gosto porque ele mostra vários aspectos da arquitetura no antigo Egito, não se limitando ao velho clichê pirâmide+tumba no Vale dos Reis. Nele o autor fala sobre moradias, templos feitos de madeira, ornamentos etc.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

Casamento e virgindade no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O ocidente se criou sob a sombra das famílias patriarcais, onde a “honra imaculada” da mulher era muito presada. Esta foi uma regra comum entre os membros da elite, que além de apoiar o domínio dos pais, irmãos e futuramente os maridos, procurava garantir que o patrimônio não seria dado para uma criança gerada de outro homem. E foi inspirado neste pensamento que os primeiros egiptólogos começaram a interpretar o casamento no Egito Antigo, modelo esse que é seguido ainda hoje, sem críticas mais apuradas. Por exemplo, a interpretação do papel de cada conjugue no casamento parece ter sido “infectado” pelo o ponto de vista da nossa contemporaneidade.

Usualmente é descrito que homens eram os mantedores da casa, enquanto a mulher era a responsável pela a organização do lar e o cuidado dos filhos. Temos até textos clássicos que são usados para afirmar isto, como o “Ensino de Ptahhotep” (ZABA, 1956 apud TOIVARI-VIITALA, 2013) em que um rapaz é aconselhado a fundar uma família quando ainda é jovem para poder ter crianças. Ele deve amar sua esposa, respeitá-la e mantê-la sob controle, mas este texto é proveniente da elite e não parece ter sido adotado como uma regra geral, mas somente um conselho entre partidários. O próprio Strouhal (2007), que será amplamente citado neste texto, defende uma visão arcaica do que teria sido o casamento no Egito Antigo, contudo, observando os indícios escritos e arqueológicos de uma forma mais questionadora observamos que a realidade poderia ter sido um pouco mais diferente. De fato o cuidado com a criança parecia ser uma prioridade da mãe, contudo, a gerência do lar poderia ser do homem ou da mulher.

Cena familiar no Antigo Egito. Imagem disponível em < http://artehistoriaegipto.blogspot.com.br/2012_01_22_archive.html >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

No Período Faraônico, a palavra utilizada para designar esposa foi Hmt e marido hay (TOIVARI-VIITALA, 2013). Estas menções foram encontradas em vários objetos que tinham como uma de suas funções apresentar ao receptor a ligação matrimonial entre um homem e uma mulher e são vistos deste os primórdios das dinastias. As referências textuais ao casamento mais antigas são provenientes do Antigo Reino em edifícios, túmulos da realeza e artefatos móveis, usualmente derivados da elite. Tais referências consistem na descrição de algum título que indica o estado civil dos citados, ou seja, a condição deles de casados (TOIVARI-VIITALA, 2013).

Merit e seu esposo Maya. Imagem disponível em < http://www.rmo.nl/english/collection/highlights/egyptian-collection/statue-of-maya-and-merit >. Acesso em 08 de julho de 2014.

Embora anteriormente à 16ª Dinastia (Segundo Período Intermediário) as mulheres gozassem de certa liberdade — o que para gregos e romanos era considerado algo escandaloso (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007) —, quem definia se o homem que elas tinham escolhido era o ideal era o pai e na ausência deste um tio, contudo, após este período, elas tinham voz em suas decisões, embora casamentos arranjados tenham existido até o final do Faraônico (STROUHAL, 2007).

Algo como “noivado”, ou um acordo prévio que tratasse o casamento como uma promessa entre um casal é desconhecido, mas o par estava livre para namorar e mesmo ter relações sexuais (STROUHAL, 2007). O enlaço sexual, tanto antes, como posterior ao casamento, era aconselhado para que ocorresse somente após a puberdade de ambos os jovens e no caso de uma gravidez indesejada, embora o aborto não fosse bem visto (já que a ideia era perpetuar a linhagem da família), existiam receitas para realizar o que chamavam de “desvio de gravidez” (STROUHAL, 2007).

Contudo, quando se tratava de um futuro casal da realeza, a aliança poderia ocorrer muitos anos antes da maturação sexual do casal, visando não o amor ou a harmonia entre os casados, mas a conveniente união entre famílias e ordens religiosas.

Tutankhamon e Ankhesenamon. Imagem disponível em < http://www.ancient-egypt.co.uk/luxor/images/luxor_2004_027.jpg >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

Sabe-se que era popular o matrimônio incestuoso tanto dentro da realeza, como entre as camadas mais populares, no entanto, tal prática tornou-se de fato obrigatória durante o Período Ptolomaico, quando a nobreza tentou agregar para si uma identidade semelhante aos dos deuses (STROUHAL, 2007). Porém, não necessariamente um casal que chamam um ao outro de “irmã (o)” de fato tinham uma ligação sanguínea. Em verdade tal termo buscava explanar algo carinhoso, indicando um forte vínculo com quem se amava (STROUHAL, 2007).

A festa para comemorar a nova vida juntos usualmente consistia em um banquete que reunia o casal com seus familiares e amigos. Um acordo social — escrito e assinado na presença de testemunhas — definia quais eram os bens da mulher e do homem antes do casamento, em uma eventual separação era necessária a correta divisão dos bens segundo este acordo. Contudo, no caso de grandes discórdias, eram feitas seções para decidir o que cada um tinha por direito (STROUHAL, 2007).

Nebamun e sua esposa. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/menesje/sets/72157622616113777/ > Acesso em 14 de maio de 2011.

Como o sexo era permitido antes do matrimonio, naturalmente é de considerar que a virgindade não era um tabu ou algo necessário. O que se esperava é que a esposa não estivesse grávida de outro homem. Embora uma criança com uma ligação sanguínea com a família fosse desejada, a adoção foi um ato cultural e existem registros de testamentos tanto de mulheres como de homens que deixaram seus bens para filhos adotivos (STROUHAL, 2007).

O adultério era condenável para ambos os lados. Caso o casal julgado fosse condenado, ambos eram chicoteados publicamente ou marcados e existiram penas que iam desde o exílio para a Núbia até cortar o nariz ou as orelhas (STROUHAL, 2007). Se levarmos a sério os textos ficcionais como o Papiro Westcar, podemos crer que a pena de morte para estes casos no Antigo Reino era aceitável. Nele, um sacerdote traído pede auxílio ao Faraó, que por sua vez condena o amante da esposa a ser devorado por um crocodilo feito de cera (que se transforma em um animal de verdade) e a mulher a ser queimada e tuas cinzas jogadas no Nilo (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Acontecimento semelhante é contato na história dos irmãos Bata e Anúbis: este último, ao descobrir que a esposa assediava o irmão, pede o assassinato da mesma e que o seu corpo seja jogado aos cães (STROUHAL, 2007). Contudo, ao contrário desses textos, nem todas as traições terminavam de forma dramática, alguns documentos citam o divórcio por tais motivos sem incidentes (STROUHAL, 2007; LORTON, 1977; GALPAZ-FELLER, 2004; TOIVARI-VIITALA, 2001 apud TOIVARI-VIITALA, 2013).

Entretanto, a violência contra o gênero feminino também foi registrada em textos não fictícios, como atesta um documento onde a mulher denuncia o crime:

“Meu esposo me bate com um látego, e quebrou meu braço como se fosse um junco. Meu primogênito me deu um pontapé, e esta manhã não pude levantar-me da cama” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007, pág 111).

Outro motivo para o divórcio poderia ser a não satisfação sexual: a esposa poderia acusar o marido de não satisfazê-la sexualmente e assim dar entrada na separação (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Procurando evitar isto alguns homens acionavam médicos que cuidavam do seu problema, definido como “doença de homem” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

União homossexual:
Alguns pesquisadores têm se empenhado, desde o início da Egiptologia, em negar a existência da prática homossexual no Egito Antigo, a exemplo de Frank Fortis que na década de 1950 tendia a negar veemente o enlace sexual entre pessoas do mesmo gênero, ao mesmo tempo que afirmava que tal prática era tolerada. Além deste discurso contraditório ele possuía uma visão preconceituosa, afirmando que as mulheres e homens egípcios eram miseráveis sexualmente e limitados culturalmente (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Mas, a despeito da negativa, existem textos egípcios que apresentam a homossexualidade tais como o do Papiro Prisse (Médio Reino), em posse da Biblioteca Nacional de Paris e o Papiro 10509, sob a custódia do Museu Britânico (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Referências:

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.
EL-QHAMID; TOLEDANO, Joseph. Erotismo e sexualidade no Antigo Egito (Tradução de Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.
TOIVARI-VIITALA, J. “Marriage and Divorce”. UCLA Encyclopedia of Egyptology, 1-17. Retirado de https://escholarship.org/uc/item/68f6w5gw (2013)

Como as egípcias se preveniam da gravidez

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Era reconhecido que a gravidez estava associada ao coito, porém não somente através dos órgãos sexuais, mas também pela boca, ou seja, a crença ditava que a felação era capaz de gerar uma criança, deste modo, podemos inferir que as relações não genitais poderiam ter sido restritas por alguns casais para evitar o risco de uma fecundação.

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Saindo do campo da especulação, atualmente conhecemos alguns contraceptivos egípcios através de papiros médicos, tal qual o Papiro Médico de Kahun, um dos mais antigos documentos de ginecologia conhecidos do mundo (DAVID, 1999). Os “desvios de gravidez”, o chamado por nós de “aborto”, quando desejado, era realizado escolhendo umas das receitas disponíveis como o azeite quente, mel com uma pitada de natrão, leite azedo ou goma de acácia (goma-arábica), que eram introduzidos individualmente na vagina (HASAN et al, 2011).

Referências: 

DAVID. A. R. “Town Lahun”. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

HASAN, Izharul; ZULKIFLE, Mohd; ANSARI, A.H;  SHERWANI, A.M.K., SHAKI, Mohd.  History of Ancient Egyptian Obstetrics & Gynecology: A Review. Journal of Microbiology and Biotechnology Research. 2011, 1 (1): 35-39

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Cemitério revela picos de atividade sexual no Egito há 1.800 anos atrás

 

 

Tradução de João Carlos Moreno de Sousa | Blog Arqueologia e Pré-História | Comentários em itálico/negrito de Márcia Jamille Costa | @MJamille

O texto a seguir apresenta as pesquisas realizadas nos cemitérios romanos do oásis Dakhla (Em inglês, “Dakhleh”) e algumas das informações que eles podem fornecer não somente acerca dos índices populacionais e das estimativas do número de mortes de cada gênero, mas dando detalhes acerca das concepções de crianças e até da política governamental (no caso daqui a não prestação de contas para a arrecadação de impostos). O que é mais relevante nesta pesquisa é a preocupação em entender as populações oasitas, tema que é de discussão pouco comum na Arqueologia Egípcia e que consequentemente gera pouca bibliografia. Obrigada ao Joaõ Carlos por disponibilizar a tradução – que está disponível no seu site – da notícia para a publicação aqui no A.E.

 

O período de pico para sexo reprodutivo no antigo Egito era entre julho e agosto, quando o clima era mais quente.

Os pesquisadores fizeram a descoberta em um cemitério no Oasis Dakhleh, no Egito, cujos enterros datam de cerca de 1.800 anos atrás. O oásis fica cerca de 720 km a sudoeste do Cairo. As pessoas enterradas no cemitério viveram na antiga cidade de Kellis, com uma população de pelo menos vários milhares. Estas pessoas viveram em uma época em que o Império Romano controlou o Egito, quando o cristianismo foi se espalhando, mas também quando as crenças religiosas egípcias tradicionais ainda eram fortes.

Restos do templo de Kellis, Dakhla. Imagem disponível em < http://www.livescience.com/32067-ancient-egypt-cemetery-photos.html >. Acesso em 05 de junho de 2013.

Até agora, os pesquisadores descobriram 765 sepulturas, incluindo os restos de 124 indivíduos que datam de entre 18 e 45 semanas após a concepção. O excelente estado de preservação permite que pesquisadores datem a idade dos restos mortais. Os pesquisadores também poderiam apontar o mês de morte, assim como os túmulos eram orientados na direção do sol nascente, algo que muda previsivelmente ao longo do ano.

Os resultados, combinados com outras informações, sugerem que o período de pico de nascimentos no local era entre março e abril, e o período de pico de concepções entre julho e agosto, quando as temperaturas no Dakhleh Oasis pode facilmente chegar a mais de 40 graus Celsius.

O período de pico para a morte de mulheres em idade fértil também é entre março e abril (exatamente espelhando os nascimentos), indicando que um número substancial de mulheres morreram no parto.

 

Uma mulher adulta com um bebê (circulo vermelho) enterrado ao lado de suas pernas. Ambos foram encontrados em Dakhla. Imagem disponível em < http://www.livescience.com/32067-ancient-egypt-cemetery-photos.html >. Acesso em 05 de junho de 2013.

 

Apesar das tentativas feitas no passado para reunir os antigos padrões de nascimento egípcio usando registros do censo, os pesquisadores dizem que esta é a primeira vez que esses padrões foram determinados por olhar para os enterros.

“Ninguém nunca procurou por isso usando os indivíduos propriamente ditos, os aspectos biológicos do mesmo”, disse a pesquisadora-chefe Lana Williams, professora da University of Central Florida, em entrevista ao LiveScience.

A equipe apresentou sua pesquisa recentemente na reunião anual da Sociedade de Arqueologia Americana em Honolulu.

 

Sexo no verão

A concepção não atingia o pico nos meses de verão para outras culturas do Mediterrâneo antigo, observou Williams, acredita-se que o tempo quente teria abaixado a libido sexual e possivelmente a contagem de esperma.

No antigo Egito, no entanto, as novas descobertas indicam que em Kellis as concepções aumentaram mais de 20% acima da média anual do sítio.

O favorecimento reprodutivo no verão no Egito antigo pode ter sido devido a crenças tradicionais sobre a fertilidade e da inundação do Nilo. As pessoas que viviam no Oasis Dakhleh nos tempos antigos acreditavam que o rio Nilo era a fonte de sua água e que a inundação do Nilo, que ocorre no verão, era a chave para a fertilidade de suas terras.

 

Sepultamento de uma criança em Dakhla. Imagem disponível em < http://www.livescience.com/32078-ancient-egypt-cemetery-reveals-sex-season.html >. Acesso em 05 de junho de 2013.

 

“Mesmo que esta fosse uma comunidade cristã, sabemos que eles ainda estavam praticando, ou tendo essas crenças sociais, sendo a fertilidade mais elevada nos meses de julho e agosto”, disse Williams. “Temos relevos no templo local que mostram isso, a inundação anual do Nilo, que se celebra em Dakhleh”.

Ela acrescentou que a inundação anual do rio Nilo foi um evento central ao longo da história egípcia. “Este foi um aspecto muito forte de crenças sociais de fertilidade”, disse ela. “O Nilo é a dádiva do Egito – sem ela, não há realmente nenhuma maneira que essa civilização poderia ter sobrevivido através de 3.000 anos de história”.

Estes padrões de concepções e nascimentos provavelmente teriam continuado mais para trás em tempos antigos e ocorreram em outros locais do Egito, bem como, disse Williams. Na verdade, eles parecem ter também continuado em tempos relativamente modernos.

“Curiosamente, todo o caminho até os anos de 1920 e 1930, ainda vemos esta máxima de nascimento que ocorre no mesmo período [cerca de março e abril]”, disse Williams em relação aos registros de nascimento da Organização Mundial de Saúde que analisou o Egito rural.

Ruínas de Kellis, Dakhla. Imagem disponível em < http://www.livescience.com/32067-ancient-egypt-cemetery-photos.html >. Acesso em 05 de junho de 2013.

 

Proibições sexuais

Enquanto o verão é o horário nobre para egípcio antigo reproduzir, o período em torno de janeiro parece ter sido um ponto baixo, quando a concepção cai para 20% abaixo da média anual do sítio. A queda de bebês foi provavelmente devida à nova religião, o Cristianismo, que nos tempos antigos proibiu o sexo durante certos períodos, como durante o Advento e da Quaresma.

Os textos antigos indicam que os primeiros cristãos egípcios eram orientados a evitar relações sexuais “no sábado, no domingo, na quarta-feira, e na sexta-feira, nos 40 dias da Quaresma e antes que as outras festas em que se pode tomar a Eucaristia”, escreve Peter Brown, professor de clássicos na Universidade de Princeton, em seu livro “The Body and Society: Men, Women and Sexual Renunciation in Early Christianity” (Columbia University Press, edição de 2008).

O povo de Kellis pode não ter sido tão rigoroso como esses textos recomendam, mas a concepção cai a um ponto baixo em torno de janeiro, que está perto tanto do Advento quanto da Quaresma, apontou Williams.

 

Contraceptivos antigos

Os padrões também sugerem que algumas formas de contraceptivos antigos estavam em uso.

“Se você tem esse tanto de uma concepção bem padronizada, deve haver alguma forma de contracepção que estava acontecendo”, disse Williams, destacando que os textos de antigos egípcios médicos falam de vários métodos que eles acreditavam que agiram para evitar a gravidez.

Por exemplo, receitas de contraceptivos do Papiro Médico de Kahun, que datam cerca de 3.800 anos, incluíam esterco de crocodilo e mel em seus ingredientes. Não está claro a partir dos papiros sobreviventes exatamente como eles eram inseridos no corpo. Em um fragmento lê-se que para o mel devia “borrifar [ele] sobre seu ventre, isso deve ser feito na cama” (tradução por Stephen Quirke).

Williams disse que a perspectiva de ter que tomar remédio cheio de esterco, e ter relações sexuais com ele em você, provavelmente desanimava a relação sexual. “Apenas por aversão, ele provavelmente já funcionaria como contraceptivo”, disse Williams.

“O interessante é quando você começa a olhar para os ingredientes, o alto teor de ácido que teria no esterco de crocodilo, as qualidades antibacterianas do mel, ele provavelmente iria derrubar a possibilidade de gravidez, agindo como um espermicida”, disse Williams, acrescentando que não teria sido tão eficaz como os contraceptivos modernos.

 

Evitar o Fisco

Quando a equipe comparou os resultados da investigação com os registros do censo romano, eles descobriram que os registros estavam um pouco distantes, indicando maio e junho como o pico máximo de nascimentos.

Como os registros do censo foram amarrados à tributação, as pessoas que vivem no Egito Romano parecem ter adiado seus registros.

“Nós não queremos pagar nossos impostos até o último momento, então não vamos fazer isso, vamos adiar a apresentação desse documento até que tenhamos que faze-lo”, disse Williams, especulando sobre o motivo que teria adiado os registros de  nascimentos. Para os antigos egípcios que vivem sob o domínio romano, parece que o sexo, o nascimento, a morte e os impostos foram todos ligados entre si.

FONTE: http://www.livescience.com/32078-ancient-egypt-cemetery-reveals-sex-season.html